Sempre que escuto a expressão “armas para a paz”, minhas convicções humanísticas entram em colapso, como se despencassem da estratosfera em queda livre. Mas quando essa mesma expressão vem acompanhada de “em nome de Deus”, então não há mais retorno: a suposição humanística se incinera na reentrada atmosférica, perdida no espaço, longe de qualquer gravidade.
Ontem, 28/02/26, ouvi de um bolsonarista que, em nome de tudo que é sagrado, o “gestor temporário do império do mal” estaria correto em bombardear o Irã, já que ali imperaria a perversidade por não reconhecerem Cristo como rei dos judeus. Confesso que quase perguntei se ele se referia às letras gravadas na cruz — INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum) — ou a Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Seria necessário explicar que, no latim, o “I” tem o valor de “J”.
Para o povo israelita, Cristo foi um marginal — não necessariamente criminoso, mas alguém à margem do sistema. Segundo a interpretação bíblica que sustenta o capitalismo mundial, ele seria o legítimo herdeiro da casa de Davi, portanto rei de Israel. A inscrição INRI nas cruzes é, em essência, uma ironia do poder invasor romano.
O problema, porém, não é apenas histórico ou religioso, mas de letramento. Há mais de 1.700 anos, a incapacidade de compreender textos tem exterminado a inteligência coletiva. O Brasil sequer existia quando os impérios ibéricos dominaram as navegações nos séculos XV e XVI e “descobriram” estas terras. Descobrir? Não. O Brasil não foi descoberto.
Não pretendo citar versículos bíblicos nem ridicularizar crenças. Apenas aponto que muitos cristãos autoproclamados de direita não se dão ao trabalho de ler ou compreender, e isso se reflete em seus votos e em sua forma de pensar. Se são tão aficionados por celulares, que ao menos assistam a um filme sobre a prisão de Cristo. Ali verão duas coisas: o tratamento brutal dado a ele e a tortura que culminou na fixação da placa INRI. Essa cena ecoa, de forma perturbadora, nas defesas que o “bozo” faz de outros torturadores.
Sei que nenhum bolsonarista lerá estas crônicas. E, caso leia, não compreenderá. Ainda assim, escrevo.

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