Fiz, de cabeça, uma lista de pessoas e movimentos que a militância me levou a conhecer. Antes das pessoas, vieram os lugares; e nesses lugares, culturas, sabores e histórias.
Claro que não dá pr
a falar de lugares sem lembrar das culinárias. Os peixes da Amazônia e do Pantanal, por exemplo. Mas confesso: ainda prefiro a moqueca capixaba. Minha mãe era baiana, do Recôncavo, e foi com ela que provei minha primeira moqueca. E a primeira, a gente nunca esquece.
Do Pará, lembro do pirarucu assado na folha de bananeira, mas também da bandeja de camarão que até hoje aguça o paladar. A cachaça, a farinha d’água, uma tigela de açaí. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Um açaí na Praça XV, uma manga caindo na cabeça, um tacacá acompanhado de uma cerveja Cerpa. O tempo passa, mas as saudades fervilham.
No Pantanal, quando Mato Grosso ainda não tinha o “do Sul”, viajei de trem até a Bolívia. A cada parada, crianças entravam nos vagões com travessas de pintado frito e mandioca cozida. Água, só dos bebedouros do trem — vender mineral não era costume. Pessoas, pessoas e mais pessoas. E sempre um fogão a lenha por perto. Era tempo de militância clandestina, e nem meu nome verdadeiro as pessoas sabiam.
No Sul, o café do Estádio do Café, em Londrina, ainda me marca. Naquele tempo, ninguém falava da relação entre café e insônia. O cigarro, então, era quase um companheiro constante. Mais ao sul, vieram as tecelagens e cerâmicas catarinenses, as cervejas alemãs e o marreco ao forno. Nos pampas, os churrascos no chão das estâncias, regados ao mate. Não lembro de plantações de erva-mate, só da colheita espontânea. Mas lembro bem do sol às margens do Guaíba, das tardes de cerveja na Praia de Belas, das tramas políticas que ferviam ansiedade farroupilha, dos cafés coloniais na Serra. Pessoas, pessoas e mais pessoas.
No Sudeste, onde ainda vivo, as macarronadas de domingo se misturam às culinárias de todo o Brasil. O único destaque é o “cânone” da Rua Javari, no campo do Juventus. Nos Gerais, conheci o padre Maurinho — pequeno de estatura, gigante na militância. Reencontrei-o depois no MOVA, já ex-padre, sempre lúcido. Ali também provei uma moqueca que superou até a da minha mãe. No Rio, vieram as malandragens da Lapa, as lideranças do Partidão, a cultura dos Goytacazes.
No Nordeste, fui muitas vezes. Era a terra do meu pai e a região da minha mãe. Nos tempos de Dom Hélder, das músicas de Moraes Moreira, das referências de Suassuna, das lutas de Julião, dos ensinamentos de Arraes. Em Olinda conheci Dom Hélder; em Recife, minhas primeiras lembranças de Paulo Freire.
As lembranças de Freire me levam ao MOVA, que sempre me remete à Iraci, à irmã Gabriela, à Joana, ao meu velho amigo — não direi o nome, para não parecer etarista. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Essa militância atravessa gerações. Na Associação Cantareira, há quem faça aniversário justamente no Dia Internacional da Mulher. Tem a Mileja. São pessoas, pessoas e mais pessoas. Todas citadas nas minhas listas. Listas que são, exclusivamente, de lutas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário