Ornitorrinco
Lembro, quase assustado, de quando ouvi pela primeira vez a palavra “ornitorrinco”. Curso primário, aula de conhecimentos gerais, evolução das espécies — Darwin. Aquilo colocava em xeque tudo. Tudo, tudo. Ah, família católica.
O ornitorrinco era o animal que faltava a Darwin.
Da evolução, lenta e gradual, saltamos para um atroz retrocesso. Que fenômeno produziu tal anomalia?
Direita? Não — não uma ideologia política. Idolatria? Não. Idiolatria. Sim, idiolatria.
É duro encontrar pessoas mais jovens — putz, até doeu saber que as vi crescer — cujos pais ajudaram a construir a Teologia da Libertação e que, simplesmente, “bozomerdaram”.
Isto, ao contrário do ornitorrinco — que seria a peça-chave no tabuleiro da evolução —, é o enigma da involução.
Na ponta desta corda, a mesma mola propulsora: uma cantilena de sereias. Tal qual para Odisseu, as pedras da destruição surgem com diversas e sutis diferenças. No fundo deste mar da involução, o miliciano vira honesto e o sonho é não poder sonhar.
Anesino Sandice
Ontem, 12 de maio de 2026, durante o velório de meu irmão, alguns abraços soaram estranhos. Não o abraço em si — a estranheza foi perceber que crianças que jogavam bola nas ruas já são avós. Uma estranheza até perceptível, afinal, os meus quarenta já são setenta e tantos.
Mas a estranheza não é bem essa — e também não vou identificar ninguém. O filho de uma vizinha, que recentemente, na Jornada Mundial da Juventude Católica, abriu as portas de sua casa para abrigar jovens guatemaltecos; que ajudou a construir a hoje Paróquia de Santa Terezinha; e depois os edifícios e a organização social que cuida de mais de mil crianças e adolescentes — um de seus filhos, pura e simplesmente, bozomerdou.
Como a história de construção de sonhos dá lugar à morte da possibilidade de sonhar?
Na resposta a essa estranhíssima questão, uma única conclusão possível: estamos diante de um novo ornitorrinco. Porém, este não é uma espécie biológica — é, na verdade, um acidente psiquiátrico que nem Freud conseguiria explicar, caso ainda vivesse. Como a solenidade de quem tem o privilégio da contemporaneidade da Irmã Natalvina Zanella desembesta para filhos bolsominions?
Se a nossa mestra Natalvina Zanella nos ensinou a Teologia da Libertação, os discípulos de um inexistente Cristo conservador trouxeram a Teologia da Propriedade.
Isto, sem dúvidas, é a ocorrência de um ornitorrinco psiquiátrico — ou uma metamorfose às avessas: uma metamorfose que cria a involução.

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