segunda-feira, 30 de março de 2026

TOMO MMCLXV ENTRE A PAREDE ESPESSA E A LINHA TÊNUE


Muito se tem falado sobre o limite do sistema solar — esse ponto imaginado onde desaparecem tanto a gravidade quanto o calor do nosso Sol, cedendo espaço à influência de outra estrela. Alguns chegam a descrevê-lo como uma “parede de fogo”. Ainda que seja uma metáfora distante da realidade, ela serve como imagem poderosa para pensar os contrastes de nosso cotidiano: entre o sonho inalcançável de um castelo da Disney e a dura proximidade de um ônibus lotado em São Paulo, antes do primeiro governo petista.

Para registro, não para os desmemoriados: até a eleição municipal, os ônibus urbanos chegavam a transportar vinte e duas pessoas por metro quadrado. A expressão “lata de sardinha” não era exagero, mas descrição fiel.

A ausência de memória é ferramenta de manipulação. Ela alimenta o sonho estadunidense e, ao mesmo tempo, serve como retorno a um passado que muitos preferem esquecer. Jovens, manipulados por games e narrativas dominantes, acabam seduzidos por discursos da extrema direita. É verdade: eles não viveram a experiência sufocante das “latas de sardinha”. Mas não nasceram de chocadeiras — têm pais e avós que guardam lembranças. E, ainda que possam recorrer ao Google, não é esse tipo de busca que se estimula. Para existir “pobre de direita”, é preciso moldar pensamentos, e os games oferecem um terreno fértil: naturalizam a violência, em contraste com a visão progressista de respeito à vida.

Os jogos são realidade há gerações. O sangue que jorra nas telas, ampliado por óculos 3D, não choca mais. Mas o que ensina não é apenas a novidade: é a exposição de caminhos já percorridos. A ciência nasce do experimento, e o laboratório para que o “pobre de direita” deixe de existir é o vivenciamento da cruel realidade que nos perseguiu até pouco mais de três décadas atrás. Ainda que os gamers atuais não tenham vivido isso, uma roda de conversa — mesmo imaginária — pode reativar memórias adormecidas de seus avós.

Uma vez despertas, essas lembranças tornam-se simples aritmética: somar dois mais dois. Foi preciso a eleição de uma mulher nordestina para que se olhasse às periferias e se alterasse uma realidade inimaginável: os ônibus urbanos de São Paulo deixaram de ser latas de sardinha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SBP em pauta

DESTAQUE

GUERRA CONTRA AS DROGAS: A velha ladainha americana para intervir na América Latina

Desde o seu início, na década de 1970, a guerra às drogas promovida por Washington na América Latina tem sido alvo de controvérsia e debate....

Vale a pena aproveitar esse Super Batepapo

Super Bate Papo ao Vivo

Streams Anteriores

SEMPRE NA RODA DO SBP

Arquivo do blog