Para quem viveu no interior antes da internet, do boom das igrejas evangélicas e das baladas, a pracinha da igreja católica era o verdadeiro point da juventude. Ali, entre a lanchonete e a sorveteria, acontecia o grande frisson. Já para os pais — especialmente os homens — a palavra “igreja” tinha outro significado: as mães se referiam a certas “igrejas” como as casas da luz vermelha.
Igreja, nesses dois cenários, sempre foi sinônimo de diversão.
Mas é preciso um adendo antropológico: a igreja, católica e, por consequência, as evangélicas, não nasceu como espaço espiritual, e sim como instrumento de submissão das massas às vontades das elites. Essa origem ajuda a compreender as denúncias recentes sobre duas instituições religiosas envolvidas em escândalos bancários.
A primeira, amplamente divulgada, é a vinculação da Igreja Batista da Lagoinha com lideranças do bolsonarismo — movimento que, embora se diga cristão, defende a tortura e a pena de morte. Ironia cruel: o Cristo que fundamenta a fé foi torturado e executado. Se esses “cristãos” soubessem ler, não se alinhariam a nenhuma ideologia de direita, pois a própria estrutura da igreja nasceu para sustentar o Estado e o poder.
Dentro da Lagoinha, há uma organização política da direita. Os R$ 5 milhões destinados ao financiamento de campanhas da extrema direita nas últimas eleições não surpreendem. Tampouco é novidade que igrejas sejam donas de bancos. A Igreja Católica teve o Banco do Vaticano — que quebrou. Das fintechs ao Master, nada disso é novo, ainda que grotesco. O caso Master virou manchete mundial, mas, para a fração bolsonarista “raiz”, é apenas mais uma “perseguição”.
Nesse cenário de cegueira coletiva, o discurso vitimista de quem se dizia “histórico de atleta” não arranha a fé dos bolzominiuns. A questão é antropológica: a fé como ferramenta de dominação social. Se o cristão pensasse por si, se autodeterminasse, afastar-se-ia dessas igrejas de direita.
Os mais de cinquenta bilhões atribuídos à fraude bancária revelam o vínculo entre religião, poder e conservadorismo — sustentado pelo presidencialismo de coalizão e pelo centrão, presente em todos os governos desde a redemocratização.
O texto cita dois bancos: o dos progressistas, ligado ao partido do governador de São Paulo, que recebeu dois quintos das contribuições do Master, e o da Igreja Universal do Reino de Deus, dona do Digimais, também em crise.
Se o Vaticano tinha justificativa para possuir um banco — afinal, é um Estado reconhecido pela ONU —, o mesmo não se aplica à Lagoinha ou à IURD. No livro Igreja S/A, do padre Odêmio Antônio Ferrari, há o registro de uma fábrica de bancos para igrejas, uma mistura de fé e empreendedorismo. Mas quando essa fé empreendedora se transforma em casa bancária envolvida em irregularidades, o surreal se torna real.
No fim, tudo se repete: a igreja que nasceu para sustentar o império romano segue sustentando os impérios modernos — financeiros, políticos e espirituais.

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