A metade do mundo acha que a outra metade é comunista. Esta metade, julgada de ser comunista, tem a certeza — logo, não acha — que a que a julga comunista é idiota."
Estou, seguramente, na metade julgada de ser comunista. E acreditem: no meu caso particular, a metade do mundo que me atribui essa classificação tem toda a razão. O problema — e é um problema considerável — é que essa mesma metade que me julga comunista é, de fato, idiota. Não por acaso, mas por escolha deliberada e cotidiana. Por uma razão simples: se seguisse de verdade aquilo que diz acreditar — não apenas na tese do deus único, mas, sobretudo, nos ensinamentos registrados no livro que chamam de sagrado —, essa metade também seria comunista. Muito mais, aliás, do que a maioria das pessoas que acusa de sê-lo.
Poderíamos nos deter, como de costume, na ladainha de que a Bíblia foi redigida no Concílio de Niceia, por ordem do imperador romano Constantino. É um argumento legítimo, mas insuficiente. Ele sozinho não dá conta de revelar o caráter domesticador do texto sagrado — e, ao mesmo tempo, deixa na sombra tudo aquilo que o mesmo texto traz de genuinamente subversivo.
Porque há muito a ser examinado ali dentro.
Em João 8:7, Cristo propõe o critério mais democrático e devastador da história do moralismo: "Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado." Uma linha. Uma frase. O suficiente para tirar o sono de todo idiota misógino que usa a Bíblia como bengala para bater nas mulheres. Em Lucas 10:25-30, a parábola do Bom Samaritano desfaz qualquer ilusão de que a fé autoriza o ódio ao diferente — e deveria fazer arrepiar cada careca intolerante que ergue a cruz como símbolo de exclusão. Mesmo em Gênesis 19:24, se o tema em questão fosse honestamente debatido, haveria muito mais vergonha do que triunfo entre os autoproclamados guardiões da moral.
Tudo isso apenas para demonstrar que não é apenas no Velho Testamento que os idiotas deveriam, ao ler, abandonar as idiotices.
Mas é em Mateus, capítulos 5 a 7, que a coisa fica verdadeiramente interessante. O Sermão da Montanha — o texto mais revolucionário de toda a Bíblia — faria os acusadores de comunismo corar de vergonha. Não porque os acusados sejam comunistas, mas porque o próprio texto que os acusadores juram defender contém, nessas páginas, a defesa mais apaixonada da partilha, da misericórdia com os pobres, da renúncia à acumulação e da humildade como virtude suprema. Se houvesse honestidade intelectual no exercício, os que acusam deveriam envergonhar-se — não de ser comunistas, mas de não ser.
E quem sabe, com alguma sorte, envergonhar-se também de ser idiotas.
Mas isso, claro, exigiria leitura.

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