O preço das sombras
Era uma manhã qualquer, dessas em que o café ainda fumega na mesa e o noticiário insiste em nos lembrar que o mundo não descansa. Lá estava mais uma manchete: conflito armado em terras distantes, justificativas frágeis, cifras bilionárias. E eu, diante da tela, pensava — como é possível que a vida humana seja tão facilmente descartada, como se fosse apenas um detalhe nos cálculos dos magnatas do capital?
Não é de hoje que aprendemos a desconfiar dos truques da geopolítica. Quando um líder tropeça em seu próprio país, arma uma bomba lá fora, desviando atenções. A conta, claro, não é de vidas — essas não entram no balanço — mas de dólares. Cinquenta bilhões, dizem. Valor que faria tremer qualquer orçamento nacional, mas que para eles é apenas mais uma linha em planilhas.
E nós? Nós sentimos o impacto no pão de cada dia. O petróleo, que move ônibus e caminhões, também fertiliza a terra e aquece casas em países gelados. Quando o preço dispara, não é só o combustível que pesa: é o alimento, é a energia, é a sobrevivência. O frio que mata lá fora, a fome que ameaça cá dentro.
Mas como chegamos a isso? A história, sempre ela, nos devolve ao século passado. O nazi-fascismo, com sua intolerância, racismo e misoginia, parecia enterrado. No entanto, reaparece em símbolos discretos, em discursos inflamados, em mensagens de WhatsApp que circulam como veneno. A ignorância, vendida como produto por religiões transformadas em empresas, alimenta exércitos de fiéis manipulados.
Religiosidade é busca, é humanidade. Religião, muitas vezes, é negócio. E foi esse negócio que ajudou a eleger líderes populistas, aqui e lá fora, que brincam com guerras como se fossem peças de tabuleiro.
A crônica da manhã termina com um chamado: não podemos naturalizar o absurdo. Cabe a nós, como sociedade, sepultar as ambições da extrema direita, antes que o preço das sombras se torne insuportável. Porque, no fim, não é apenas sobre eles — é sobre nós, sobre o futuro que ainda ousamos sonhar.

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