Há — e por alguns dias ainda haverá — um verdadeiro frisson em torno da Copa do Mundo de futebol.
As razões desse frisson são claras: a febre publicitária criada pelas marcas que vivem do futebol. Os anunciantes alimentam essa euforia, e a mídia faz questão de amplificá-la, indo a cada rincão do país mostrar ruas decoradas, bandeirolas, pinturas e as tradicionais “passagens de chapéu” — um financiamento coletivo para as decorações. Esse gesto popular, ao menos, é salutar.
Os foguetórios dessa época, porém, ignoram não só os ouvidos dos cães, mas também muitas outras sensibilidades.
Na Copa de 1970 — o “tri” conquistado pelo Brasil — o marketing já estava impregnado de política. Desde o afastamento do técnico João Saldanha, pairava o medo dos míticos, que reproduziam aqui o pavor ianque do comunismo. Saldanha, cronista esportivo e militante comunista, foi substituído por um ex-jogador sem experiência como técnico. O tri veio, mas com ele se apagaram os horrores de uma das fases mais sombrias da ditadura.
Esse uso do futebol para abafar regimes autoritários não foi exclusividade nossa. A Argentina repetiu o roteiro em sua primeira Copa, sob o comando militar.
Avançando na história, chegamos à Copa do vexame — o 7 x 1. Naquele ano, o patriotismo da extrema direita ganhou força. Campanhas públicas preparavam o terreno para o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016, que abriu caminho para mais de setecentas mil mortes e um caos político e social sem precedentes.
Vieram outras Copas, e o sonho do hexa continuou distante. Como a atual não acontece no Brasil, não há o clima do “não vai ter Copa”, mas a extrema direita encontrou outro objetivo — já alcançado: a convocação do “cai-cai”.
O frisson pela convocação do cai-cai é vitorioso. Como brasileiro — patriota, não patriotário — torço pela seleção canarinho, mas faço ressalvas. Esse mesmo entusiasmo lembra o clima das eleições municipais paulistanas de 2004, quando o candidato vitorioso prometia apenas repetir os feitos da prefeita de então. Se era para fazer igual, por que a troca?
A mudança de comando na gestão paulistana escondia os planos da extrema direita: dificultar qualquer avanço real na vida do povo, especialmente quando esse avanço está ligado à educação. Melhorar a educação é melhorar a consciência política — e isso, para eles, é perigoso.
Quando não conseguem evitar a vitória de uma candidatura progressista, garantem ao menos o controle do parlamento. E, por estarem muito acima da média educacional, controlam também o Judiciário. Sem esse controle, os pobres e pretos não lotariam as prisões, enquanto os ricos seguem se elegendo para o parlamento.

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