domingo, 22 de março de 2026

TOMO MMCLVIII Gamers: Reserva de Mercado

 



Proteção à Indústria Nacional & Restrição de Importação

Tenho um filho apaixonado por games. Por isso, há décadas convivo com esse universo e com os debates que ele desperta. Curiosamente, meu garoto não segue a cartilha política que muitos gamers parecem adotar, mas, por acompanhar suas conversas, acabo mergulhando nas posições desse grupo.

À primeira vista, parece que a indústria brasileira não tem qualquer participação nesse cenário. Mas não é bem assim. Assim como no cinema, começamos muito atrás das nações que lideram esse parque industrial. Se Hollywood moldou o cinema, o Japão consolidou os games, e a China, com seu avanço tecnológico, vem conquistando espaço.

No centro dessa discussão está, inevitavelmente, a questão tributária. É preciso lembrar: sem impostos não há SUS, semáforos, escolas públicas, programas habitacionais ou asfalto nas ruas. Ou seja, enquanto consumidores reclamam da carga tributária, sem ela não existe sociedade organizada.

Claro, há os que se dizem “anarco-capitalistas”. Vendem a ideia de que a desregulamentação reduziria preços, mas, no fundo, defendem a precarização das relações de trabalho — uma forma polida de propor a volta da escravidão.

Voltando aos games: a taxação de importação precisa ser entendida dentro da lógica de financiamento do Estado. Nos anos da ditadura militar, foi criada a Zona Franca de Manaus, que isentava insumos industriais de impostos. Porém, quando os produtos dali saíam para outras regiões, pagavam todas as tarifas de importação. Na prática, isso não fomentou um parque industrial nacional, apenas criou uma reserva de mercado.

E essa ausência de investimento estrutural ainda persiste. Existe, sim, uma indústria de games brasileira, mas sem os atrativos e a força dos países que dominam tanto a tecnologia quanto o entretenimento digital.

As reclamações dos gamers hoje se voltam contra impostos e contra leis como a “Lei Felca”, criada após denúncias sobre os riscos do ambiente virtual para crianças e adolescentes. Mesmo que não seja plenamente eficaz, a lei busca proteger os mais jovens. Ainda assim, em lives e debates, muitos gamers atacam tanto a tributação quanto o governo atual, tentando disfarçar que também criticariam o anterior.

O problema é que esse discurso, travestido de defesa da liberdade, acaba sendo um canal de manipulação política. Jovens, seduzidos por uma pauta aparentemente neutra — o preço dos games —, podem ser levados a apoiar projetos que, no fundo, defendem interesses de quem sonha com a invasão do “império do mal”.

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