Pedra no Tempo
O privilégio — que às vezes parece castigo — de ter vivido setenta e três anos me coloca sentado numa pedra imaginária do tempo. Uma pedra dessas que, na juventude, escalávamos para chegar ao Pico do Jaraguá, o ponto mais alto da nossa Sampa. Naquele tempo, ninguém pensava em turismo ou atividade cultural: era só o encontro da galera, o prazer simples de estar junto.
O pico continua lá, firme, mas o encanto da molecada se perdeu. Hoje, quem quer ver São Paulo inteira, e não tem carro, chama um aplicativo. O horizonte virou tela de celular.
À primeira vista, essa multiplicação de possibilidades econômicas parece saudável. E talvez até seja — até que dois pontos acendem uma luzinha na cabeça. O primeiro: nem o dono de uma pequena frota, nem o motorista individual escapam da engrenagem que lucra sobre o trabalho alheio, tirando independência e dignidade de quem dirige. O segundo é mais profundo: o cansaço físico, aquele suor da subida, desapareceu do imaginário das crianças. Agora ele se resume à esteira da academia, sob ar-condicionado e música eletrônica. Onde mesmo essas realidades se encontram?
Talvez algumas militantes feministas — daquelas que já organizaram fila de banheiro em manifestação direitista — se rebelem contra o que parece uma crítica aos palavrões na boca de uma mulher. Mas não é disso que se trata.
A frase, crua e simbólica, dizia mais sobre o poder e suas ilusões do que qualquer discurso.
Confesso: meu desconfiômetro sempre apitou diante das “bondades” burguesas. Não que uma burguesia nacional não pudesse se aliar aos comunistas na construção de uma pátria soberana — mas essa burguesia, de fato, nunca existiu. Nunca houve quem pensasse um projeto de nação, muito menos de soberania. E, sem isso, não há mesa onde se possa sentar para conversar.
IMBECILIDADE
Ah, isto, lá nos anos sessenta,
Era uma ofensa mor,
Principalmente, ou quase sempre,
Vindo de uma mulher.
Não era hábito, "nos anos sessenta",
As mulheres usarem o baixo calão,
Então, o imbecil, era para deixar o imbecil,
De cara no chão,
Sem reação,
Pedindo o penico,
Saindo se cena,
Nunca mais voltando.
Pode até ser, que os xingamentos,
Aqueles lá dos anos sessenta,
Não estejam em voga,
Principalmente, na surdina,
Putz, acabei de lembrar,
Surdina, no paralelo trinta,
É escapamento, assim, na surdina,
O imbecil escapava.
O final da inexistente ditadura "para os imbecis"
Trouxe a liberdade feminina, até no linguajar,
O imbecil, saiu de moda,
Mas, não a imbecilidade.
Tal imbecilidade, não é de um indivíduo,
É para quem nega,
Inclusive, que tenha havido,
A tal ditadura.
Nisinha Vamos

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