Lembro-me com carinho de um fato quase isolado, pouco repercutido no Brasil da ditadura militar. Era 1975 quando a ONU instituiu o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Mais do que uma homenagem, era uma necessidade de resgatar a luta feminina, como a greve de mulheres na Rússia pré-revolução socialista, além de outras manifestações que, no "mundo capitalista", tiveram mais divulgação.
Se, após a revolução, muitas lutas específicas deveriam estar incluídas em conquistas maiores para todos os trabalhadores, a verdade é que o mundo pouco evoluiu. Na ditadura, que matava, torturava e exilava quem se opunha, o 8 de março foi criado num contexto de repressão.
Dez anos depois, a ditadura "oficialmente" acabou, mas sua herança persiste. Esse dado é crucial para entender a explosão de feminicídios. Assim como no fascismo, a dominação de um grupo sobre a maioria se mantém ao fragmentar resistências e normalizar discriminações, fazendo com que as próprias minorias as aceitem.
O culto a uma "ditadura incorruptível" usava a censura como disfarce. Como ninguém sabia da corrupção, muitos acreditavam que era um tempo de ética. Mas não foi: foi um período de tortura e assassinatos.
Esse contexto explica como o "capetão" chegou à presidência. Além da manipulação midiática, as igrejas conservadoras, que proíbem o protagonismo feminino, foram peças-chave. A mulher forte da teologia da libertação virou propriedade do marido, não mais parceira. Para sufocar sonhos de um mundo melhor, criminalizaram-se os avanços. A teologia da libertação deu lugar à teologia do domínio, e o feminicídio explodiu.

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