Antes que alguém se apresse em corrigir, não se trata exatamente de uma fotografia — é uma charge, dessas que misturam humor e crítica. As cenas reunidas nela são reais, mas não simultâneas. E, convenhamos, nem nos tempos das peraltices do curso primário, lá pelos anos sessenta, ousaríamos imaginar alguém tomando detergente só para contestar uma denúncia de contaminação.
Por honestidade intelectual, devo admitir: detergente, naquela época, era artigo inexistente nas casas da periferia — que nem periferia era, mas subúrbio. E subúrbio, nos mapas do conhecimento, exigia trem, coisa que por aqui não havia.
Se um ponto já parece absurdo, os outros não ficam atrás. Não apenas pelas invenções tecnológicas, mas pelo avanço das próprias ideias. Ainda nos anos sessenta, saímos pelas ruas desertas da Vila Terezinha, crianças curiosas, procurando fotos que, diziam, haviam caído do “SPUTNIK”, pilotado por Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta humano. Imaginar adultos fazendo o mesmo seria impensável.
Tomar detergente como se fosse “K’SUCO” — o único suco em pó dos aniversários evangélicos — só mesmo numa charge. Aliás, nem jornais chegavam por aqui, então a ideia de charge já era, por si só, uma charge.
E rezar para pneu? Pois é. Devo lembrar que pneus, assim como carros, eram raridade. Mas há algo que, curiosamente, não é absurdo: o rótulo de “gado”. Nossa compreensão de gado é o vacum — bois e vacas. Mas, nos tempos bíblicos, o gado era ovino — carneiros e ovelhas. Nesse ponto, talvez sejamos exigentes demais com as idiotices dos idiotas.

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