Antes que o leitor se apresse em consultar o dicionário, esclareço: o verbete “engraçadamento” não existe. Mas é justamente esse o ponto. Não se trata apenas de algo ser engraçado — trata-se de algo ser feito engraçado, de forma contínua e deliberada.
Para compreender essa engrenagem cômica, é preciso voltar quase cinquenta anos no tempo, quando nasceu o chamado Centrão. Ele surgiu com duas funções muito claras: a primeira, barrar os avanços sociais que estavam sendo desenhados nas sessões da Assembleia Constituinte — aquela mesma que produziu o que viria a ser chamada de Constituição Cidadã. A segunda função, consequência direta da primeira, era conquistar a simpatia de todos aqueles que se opunham a essas conquistas populares. E não são poucos os opositores.
Pode parecer estranho que existam inimigos das conquistas populares dentro de um regime capitalista, mas a lógica é simples — funciona como o regime das águas pluviais: a chuva que cai nos morros distantes inevitavelmente encontra seu caminho até o mar. E aqui, “mar” são os grandes conglomerados bancários. Toda riqueza, por mais dispersa que nasça, termina concentrada.
Pronto. Já ficou engraçado. Agora imagine que esse mesmo Centrão compõe a maioria parlamentar em todas as casas legislativas do país — não apenas no Congresso Nacional, mas também nas assembleias estaduais e nas câmaras municipais. Diante disso, começamos naturalmente a nos perguntar: por quê?
Os porquês, infelizmente, são consequência direta de um processo de sedução da população. Essa sedução é necessária porque não há “mares” em quantidade suficiente para superar, em número, os “rios”, nem estes para superar os “córregos”. Em outras palavras: os muito ricos são poucos; os trabalhadores, muitos. Assim, não basta que o cidadão comum — naturalmente excluído — se recuse a enxergar-se como um filete d’água que alimenta o riacho até desaguar no oceano dos poderosos. É preciso que ele se sinta o próprio mar. É preciso que acredite ser parte dos privilegiados, e não daqueles que os sustentam.
Nesse mecanismo, a grande imprensa cumpre papel fundamental. Ela recruta, entre os próprios trabalhadores, seus fiéis escudeiros — e paga muito bem por isso. Os profissionais das grandes mídias se apaixonam por seus salários e, com o tempo, pela narrativa que ajudam a construir. Nem todos, é verdade. Há muitos que sabem exatamente como a banda toca, mas o sistema funciona mesmo assim.
E para fechar o circuito, entram as igrejas.
É assim que o pobre aprende a defender uma empresa cuja negligência contaminou um lote de produto de limpeza com uma superbactéria — simplesmente porque essa mesma empresa financiou o candidato que pior governou o país. A conta, por mais absurda que pareça, só fecha com a participação das igrejas, que transformam obediência em fé e conformismo em virtude.
Eis o engraçadamento completo: uma comédia trágica, encenada todos os dias, na qual os prejudicados aplaudem os próprios algozes.

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