Sempre que penso filosoficamente sobre a bondade, a atualidade me empurra para a música.
Primeiro, o Rappa, com sua sentença cortante: “Paz sem voz não é paz, é medo.”
Depois, Caetano, que em Tigreza canta o paradoxo: “Onde o mal é bom e o bem ruim.” Essas duas vozes, tão distintas, se encontram na mesma inquietação — o que é o bem, afinal?
Marco Aurélio, imperador romano, já dizia: “O bem que fazemos a nós mesmos vai para o túmulo conosco; o bem que fazemos aos outros é eterno.”
E é justamente aí que a música e a filosofia se abraçam: o bem não é o que se exibe, é o que se compartilha.
Mas a paz que nos vendem hoje é uma paz sem leitura, sem reflexão — uma paz sequestrada.
É a mesma cegueira com que muitos leem a Bíblia, transformando fé em ópio, e o ópio em rotina.
A leitura, que deveria libertar, tornou-se instrumento de manipulação.
Ela nos ensinou a necessidade da fé, mas também revelou como essa fé pode ser usada para distorcer o próprio conceito de bem.
E aqui chegamos ao contexto mais imediato — o fim da semana “6x1”.
Não é preciso aprofundar na cognição de quem se diz cristão e vota na direita; o ponto é outro.
O enfrentamento direto não tem surtido efeito, então é preciso observar o remendo:
o cristão de direita aplaude medidas que, na prática, apagam conquistas históricas, como o descanso semanal remunerado — legado do governo Vargas.
Esse personagem, identificado como uma nota de três reais — algo inexistente — é o retrato da contradição.
Adora o “Tio Sam”, mas ignora que lá não existe o descanso semanal remunerado que aqui querem eliminar.
E os senadores que ele elegeu, nas oficinas do Cristo anticristo, vendem essa perda como se fosse invenção divina.
Só que não.
O bem, o mal e o medo continuam em disputa — e a bondade, talvez, tenha se tornado apenas um eco distante entre o som do RAPPA e o silêncio da fé vendida.
ROMANOS
Nesta minha louca cachola,
Sempre houve três romanos,
Primeiro, os números que numeram estas crônicas,
Depois, os romanos do império,
Aqueles, que antes do primeiro filme,
Eu achava que tinham matado Cristo.
Logo, só que nem tanto, depois de aprender a ler,
Descobri, um outro romanos, o da bíblia,
Na bíblia, um centurião,
O Saulo, que virou Paulo,
Escreve, escreve e escreve,
Escreve aos romanos,
Escreve a outras pessoas,
Todas elas são irmãos.
Sempre, antes de ruminar a bíblia,
Quando eu concordava cegamente com Marx,
Ah, minha cegueira sobre a biblia,
Era a mesma cegueira sobre Marx,
Cegueira, qualquer superada pela leitura.
Santo Semfé
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