Aprendi cedo que o trabalho dignifica. Que o salário era uma dádiva do patrão. Cresci ouvindo que Vargas, o “pai dos pobres”, criou a CLT para proteger os trabalhadores. Ainda assim, minha família — quase em ingratidão — votou no Jânio contra Lott, herdeiro da corrente varguista. Minha mãe, Dona Maria, analfabeta, não votava. Mas meu pai votou, e votou contra seus próprios interesses.
Pensar nunca foi uma possibilidade livre. Sempre houve condicionamentos. Sempre existiu uma campanha sórdida contra os interesses dos pobres. E como o pensamento era “dado por Deus”, seguia-se o coração — manipulado por uma mídia que serve a interesses bem distantes do povo. Assim como o Deus de uma família onde a leitura crítica não existia.
Mas o tempo muda. E com ele, a realidade. Hoje, a capacidade de leitura é ampla, mas o vício de pensar conforme os interesses dominantes persiste. Esses interesses usam a fé como ferramenta de dominação. Uma fé antropologicamente manipulada, que serve à manutenção da desigualdade.
É urgente que ferramentas de enfrentamento entrem nos lares. Não se pede que a Bíblia seja substituída por “Crítica da Razão Pura”, de Kant. Mas que se compreenda o conceito de mais-valia. Que se entenda que o lixo jogado na rua entope rios e provoca alagamentos. Que o mesmo lixo nas encostas causa deslizamentos. Que a pizza congelada, embora mais barata que a da esquina, traz riscos à saúde.
Pais precisam saber que, além dos carinhos habituais, preparar os filhos para a vida é um gesto de amor. Ensinar a pensar é cuidar. E cuidar é resistir.
AO MESTRE, OS CARINHOS DESTES
Um abraço, um dengo,
Um carinho de pai,
Um beijo de mãe,
Aprendizados.
Aprende-se a amar,
Amando,
Aprende -se a viver,
Partilhando.
Nasci, numa família cristã,
Mas, não de um Cristo participativo.
O Cristo da família que nasci,
Era, unipresente, e, radicalmente ausente.
O Cristo da família que nasci,
Era, unipresente, de uma presença,
Que limparia os Rios,
Sujos por nós,
Um Cristo, unipresente,
Que matava, até quando alguém matava,
Já que mesmo quando alguém matava,
Era o Deus, pai do Cristo,
Quem realmente matava.
Assim, nos ensinavam a amar um Deus.
Que nunca nos deixava questionar.
A falta do dinheiro para o pão.
Mesmo que todos os rostos da casa,
Inclusive das crianças,
Estivessem banhados de suor.

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