segunda-feira, 2 de março de 2026

TOMO MMCXXXVII Trinta bilhões desviados da segurança — por quem diz defendê-la?


Sempre que escuto discursos inflamados em defesa da segurança pública — geralmente acompanhados de propostas para endurecer penas e ampliar o aparato repressivo — acende-se um alerta em minha memória. Esse alerta me transporta aos tempos sombrios da ditadura militar, quando locutores de rádio exaltavam os chamados “esquadrões da morte” como se fossem heróis, ignorando que suas práticas eram tão criminosas quanto aquelas que diziam combater.

Durante aquele período, surgiram relatos de cemitérios clandestinos, reais ou não, e mesmo com toda a violência institucionalizada, os índices de criminalidade não diminuíram. A ditadura não foi superada — ela apodreceu. E é justamente por esse apodrecimento que ainda ecoam, nos corredores do Congresso, vozes entusiastas dessas práticas, muitas delas classificadas pela ONU como crimes contra a humanidade.

Curiosamente, são esses mesmos parlamentares que votaram contra a taxação das casas de apostas online (as chamadas BETs), abrindo mão de R$30 bilhões que poderiam ser investidos diretamente em ações de segurança pública.

A contradição é gritante. Enquanto se exaltam discursos sobre ordem e punição, vídeos com fundo preto circulam nas redes, denunciando investigações sobre movimentações financeiras suspeitas. Ao mesmo tempo, tentam relativizar as tentativas de golpe que culminaram no 8 de janeiro de 2023 — um ápice, mas não um encerramento. As PECs da anistia e da impunidade avançam, travestidas de perdão estatal para quem não só não se arrependeu, como clama abertamente por uma nova ditadura.

Na ditadura, o “eu acho” substituía a investigação científica. E esse “eu acho” sempre recaía sobre os três Ps: pobres, pretos e periféricos — que, curiosamente, nunca eram encontrados nas mansões do Morumbi.

Entre os parlamentares que blindaram as BETs da tributação, muitos também aprovaram a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil. Mas quando chegou a hora de aprovar as compensações fiscais necessárias? Silêncio.

É preciso lembrar que, junto com o golpe de 2016, que abriu caminho para o retorno da extrema-direita ao poder, houve também um aumento significativo nos feminicídios. Coincidência? Difícil acreditar. Afinal, o pensamento que tenta reduzir o papel da mulher na sociedade é o mesmo que, contraditoriamente, é apoiado por muitas delas.

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