Toda vez que ouço a expressão “neutralidade do Centrão”, meu cérebro se divide. Não nos dois hemisférios clássicos, mas em dois tempos — um medieval e outro moderno — que se entrelaçam como páginas de livros antigos.
De um lado, Dante Alighieri e sua “Divina Comédia”, onde os neutros são condenados ao limbo por não tomarem partido. Do outro, Umberto Eco e “O Nome da Rosa”, onde o saber é guardado como tesouro proibido, e o analfabetismo — ora literal, ora funcional — é cultivado como ferramenta de controle.
O Centrão, esse aglomerado político que se diz neutro, nasceu entre os escombros da ditadura e os suspiros da redemocratização. Surgiu quando o Brasil tentava escrever sua Constituição mais avançada, e os fantasmas do porão militar se articulavam para impedir. Desde então, esse grupo se traveste de democrático, mas carrega no bolso o entreguismo e a repressão, embalados com laços coloridos.
A mídia — ou melhor, a “mérdia” — sempre colaborou. Nunca permitiu que a democracia florescesse de fato. Alimentou o Centrão com manchetes mornas e análises neutras, como se a neutralidade fosse virtude, e não omissão.
E assim chegamos ao presente, onde o analfabetismo funcional é cultivado por uma rede de igrejas que, sob o pretexto de neutralidade política, conduzem seus fiéis ao conservadorismo mais raso — aquele que não conserva nada, apenas repete os mantras do mesmo nazi-fascismo que sustentou a ditadura.
Dante já havia alertado: os neutros não têm lugar nem no inferno. Eco mostrou que o saber, quando escondido, vira arma. E nós, entre shampoos neutros e demônios antigos, seguimos tentando decifrar o Brasil — esse país onde o Centrão se diz neutro, mas sempre escolhe o lado que mais lhe convém.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário