sexta-feira, 6 de março de 2026

TOMO MMCXLI BURRICE HERÓICA


A sociedade brasileira tem vivido uma constante busca por heróis. Se nos tempos de Brasil colônia não há registros fidedignos, sabemos, contudo, da importância atribuída aos bandeirantes pela história oficial. Infelizmente, essa mesma narrativa também consagra figuras como o “capitão-do-mato” — sempre negros, ironicamente transformados em símbolos que caberiam em uma hipotética escola de samba dos “negros arianos”, leia-se, negros de direita ou bolsonaristas, termos que, lamentavelmente, acabam se confundindo.

Esses heróis oficiais ainda nomeiam prédios e espaços públicos, quando, na verdade, deveriam ser lembrados como motivo de vergonha. A construção dessa memória nacional se dá, sobretudo, pela repressão às revoltas nativistas. Curiosamente, o maior herói fabricado pela história oficial surge não da independência autêntica, mas daquela independência de fachada, em que o príncipe da metrópole se torna imperador da ex-colônia.

Vale lembrar que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi o único não fidalgo executado pelo exército invasor. Sua imagem foi cultuada e transformada em símbolo nacional. Quem tiver curiosidade, pode consultar livros sobre o Brasil escritos antes de 1930 para perceber como sua figura foi moldada.

A realidade é dura: apesar das revoltas populares que poderiam ter gerado outros símbolos — como Chico da Matilda, que se recusava a transportar cargas em sua jangada no Maranhão — o culto recai sobre Tiradentes. Revoltas nativistas foram muitas e importantes, mas o que revolta mesmo é ver a capital do estado mais conservador do Brasil receber o nome de um militar responsável por um verdadeiro genocídio contra um movimento popular em Santa Catarina, hoje reduto do bolsonarismo.

Essa submissão cultural, essa paixão por símbolos importados da metrópole, revela uma burrice histórica que, paradoxalmente, às vezes acaba fortalecendo a democracia. Exemplo disso foi a tentativa de imitar o golpe trumpista nos EUA. Lá, ocorreu em 6 de janeiro de 2021; aqui, os golpistas tentaram repetir a fórmula no primeiro domingo do ano, mas, por coincidência, acabou acontecendo em 8 de janeiro. A diferença crucial: Trump ainda estava no poder quando seus apoiadores invadiram o Capitólio; já no Brasil, a tentativa ocorreu após a posse do novo governo, como se fosse um golpe “sem consequências” caso fracassasse.

Mais do que agradecer à mídia e ao judiciário, é preciso reconhecer que parte dos militares ainda se mantém presa a uma lógica de obediência absurda, que muitas vezes ignora ética e legalidade. É fácil perceber que a carreira militar, pela própria estrutura hierárquica, não permite independência de pensamento. E foi justamente essa mistura de “heroísmo burro” com extrema covardia que marcou o fracasso do 8 de janeiro. Se tivesse ocorrido em 12 de dezembro de 2022, quando houve a tentativa de invasão da sede da Polícia Federal, com ônibus incendiados e jogados de viadutos, talvez o desfecho fosse outro. Mas, pasmem, naquela ocasião não houve sequer prisões.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SBP em pauta

DESTAQUE

GUERRA CONTRA AS DROGAS: A velha ladainha americana para intervir na América Latina

Desde o seu início, na década de 1970, a guerra às drogas promovida por Washington na América Latina tem sido alvo de controvérsia e debate....

Vale a pena aproveitar esse Super Batepapo

Super Bate Papo ao Vivo

Streams Anteriores

SEMPRE NA RODA DO SBP

Arquivo do blog