Desde criança, ouço histórias sobre momentos decisivos da humanidade — sempre contadas como se fossem obras exclusivas de um deus, com os humanos reduzidos a meras marionetes. Nas periferias do mundo, onde a ignorância é cultivada e o papel de plateia imposto aos pobres, aprendemos que tudo é vontade divina. As lideranças? Apenas executoras de um roteiro já escrito.
Cresci nos anos cinquenta, num mundo moldado pelas consequências da Segunda Guerra Mundial, que por sua vez foi filha da Primeira, que nasceu do atraso na unificação de dois Estados europeus. Esse atraso, motivado pela religiosidade, os deixou fora da partilha colonial — e assim, o que estava fora da Europa virou “coisa” a ser tomada pelas nações unificadas. A primeira guerra criou a segunda. E hoje, a potência que emergiu da segunda tenta parir a terceira. Se tudo é obra de deus, como diziam na minha infância, só ele saberá o que virá.
Nunca fui adepto de jogos — nem de tabuleiro, nem virtuais — mas minha mente joga com possibilidades. Especialmente ao lembrar das guerras no Oriente Médio, que se intensificaram após a criação do Estado de Israel. A primeira que me marcou foi a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel anexou territórios além do que lhe foi “presenteado” pela ONU. Desde então, sua expansão tem sido constante. E como não há terras devolutas naquela região, cada avanço é um roubo — alguém sempre perde.
Se tudo isso é vontade divina, como dizem os que não têm opinião própria, então a história — tanto a remota quanto a recente — é apenas um teatro. E os livros que a registram? Escritos por quem tem interesses. Percebi isso ao estudar a Guerra do Vietnã, que de “vietnamita” teve pouco. O que houve ali foi o imperialismo capitalista tentando impedir o surgimento de uma nova Cuba — uma nação onde os trabalhadores tomassem o que meia dúzia de antenados acham que lhes pertence por direito divino.
O mundo que emergirá do atual cenário — com ou sem uma guerra de escala global — tem dois caminhos. No primeiro, o deus do capitalismo triunfa: o governo do Irã é destituído, e o império do mal explora até a última gota de petróleo, enriquecendo elites que já não têm pátria, vivendo em qualquer canto do planeta. No segundo, o Irã resiste e impõe uma nova derrota à maior força militar do mundo, que além de seu poderio próprio, carrega o legado eurocêntrico. E então, os fiéis cegos do obscuro deus do capital terão pastores com ainda mais razões para pedir dízimos — onde o pobre passa fome para enriquecer o pregador.

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