Existe um Master com financiamento, destinado a um filminho chinfrim. No inexistente enredo dessa produção, narra-se com ares de epopeia a saga de alguém desprezível — alguém que construiu suas verdades sobre os escombros da vida real, e as elegeu monumentos.
Cabe sempre, aos olhos do narrador, um certo glamour para revestir o que, na essência, não passa de dejeto. Não estamos falando das defecações do banheiro, nem das feitas nos lugares reservados para esse fim — estamos falando daquelas que ocorrem em plena vida, diante de todos, sem cerimônia. Se não bastasse defecar sobre um público cativo, o filminho chinfrim do pangaré manco ainda atribui a esse gesto uma espécie de comoção multitudinária.
Forçam, então, os defensores cegos de Davi — citemos Samuel 1:25, já que a narrativa o exige — a venerar um deus que, aparentemente, prefere os tolos. Quem mais, senão um deus de tolos, toleraria que um de seus "servos" mantivesse um verdadeiro harém, cultivasse uma amante e, por comodidade e conveniência, mandasse o marido dela para o front de guerra? A história é velha, o roteiro é surrado, mas o público, convenientemente escolhido, não parece se importar.
É muito provável que os narrativadores — esses que circulam confortavelmente entre os pagadores e os tomadores de dízimo — narrem essa narrativa com toda a solenidade que ela não merece. Como a situação foi costurada sob medida para idiotas, convence exatamente quem precisa ser convencido: apenas os idiotas.
Não é nossa intenção, ao menos neste texto, criar consciência em bolzominium. Tampouco desenvolver uma saga ateísta — ainda que não neguemos a necessidade de falar, com honestidade, para pessoas de boa índole, sobre a urgência de alguma reflexão bíblica.
Eis a primeira, e talvez a mais necessária delas: a Igreja apoiou, histórica e institucionalmente, a escravização de seres humanos. Logo, a Igreja é falha — humana demais para carregar o peso de verdade absoluta que ela própria reivindica. Assim, nem tudo que vem de alguém que se autoproclama porta-voz de Deus deve, só por isso, ser aceito como palavra final. O rótulo não é a substância. A narrativa não é a verdade.
Mas como toda boa crônica sabe — e como Anesino Sandice já nos advertiu —, ninguém traz nenhuma verdade, a não ser que seja uma verdade narrada.
E quem narra, escolhe.
NARRATIVAÇÕES
Não me basta,
Construir narrativas,
Preciso, fazer narrativas,
Nem mesmo, espalhar as narrativas,
Muitas dessas, narrativas de narrativas,
Preciso fazer da vida,
Uma realidade distinta da realidade.
Não distinta de uma realidade qualquer,
Preciso fazer da realidade,
Uma realidade narrada,
Que até aceita narrativas,
Desde que,
Estas narrativas não contra digam,
As narrativas.
Quais são as narrativas incontestáveis,
Segundo as narrativas narradas,
Ninguém pode, na verdade,
Trazer nenhuma verdade,
A não que seja uma verdade narrada.
AnesinoSandice

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