Das primeiras vezes que ouvi falar do então “desdeputado”, hoje presidiário, o espanto foi imediato: como alguém assim poderia ser eleito? O termo cidadão carregava, à época, o peso da “otoridade” — alguém que, mesmo exalando ignorância, exercia um cargo público e achacava o poder.
Décadas se passaram até aquele fumestro 8 de janeiro de 2023, quando milhões de “cidadãos brasileiros” mostraram que talvez fosse preciso redefinir o que é ser cidadão. Afinal, cidadão é aquele que cumpre seus papéis constitucionais: paga impostos, respeita as leis e vota. Até então, reconhecer os resultados de uma eleição era algo automático.
Era automático — até aquele 8 de janeiro.
Sempre consideramos os bozos dotados de uma esperteza ímpar, sustentada pela falta de capacidade cognitiva de parte da população, especialmente aquela que enriquece pastores e falsos profetas. Julgávamos que quem votava no bozo era desprovido de inteligência, enquanto os próprios bozos eram espertos o suficiente para se darem bem sem ter nada a oferecer.
Depois da frustrada tentativa de golpe, vimos os bozolóides — aqueles que mamam nas tetas da burrice coletiva — incentivarem abertamente a invasão, mas sem aparecer. Protocolaram, no entanto, uma Comissão Mista Parlamentar de Inquérito (CMPI) que inevitavelmente revelaria a articulação dos seus, inclusive do próprio bozo.
Até então, acreditávamos que a burrice se limitava à disputa eleitoral. Mas, com o julgamento da cúpula golpista, inclusive do ex-presidente, a parte mais próxima da família começou a articular uma pressão externa contra o processo — um movimento que passou a aparentar traição à pátria.
E o “aparentar” perdeu as aspas quando o filho “rachadinheiro” ofereceu nossas terras raras durante um congresso da extrema direita. O cenário ganhou contornos ainda mais graves quando se descobriu o uso de CPF para acessar servidores e mendigar uma foto com o chefe do império do mal.
Aí, chega uma carta — e o silêncio da vergonha nacional se instala.
POESIA CAPACITISTA
Sempre me recusei,
A ser um contador de piadas,
Já, que estas, sempre foram capacitistas,
Nunca, no entanto, me recusei a fazer piadas!
Então, uma piada, do séc passado,
"O celular toca num quarto de motel,
O marido atende surpreso:
Como é que me achastes aqui no motel,
Com sua prima?"
Falei, ainda que tenha omitido a identificação,
Na vida real, os bolzominiuns,
Marcaram pela Internet
A festa da Selma, ah, selma, o som, de selva.
Na justificativa, a ida era uma manifestação pacifista,
Só que usaram o CPF, para "logar"
Nos servidores dos três poderes,
E de lá, mostrassem as inexistentes bíblias.
Confesso, até então, era difícil falar em falta de inteligência.
Afinal, as justificativas para o voto no bozo,
Careciam de justificativas.
Anesino Sandice

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