domingo, 14 de junho de 2026

TOMO MMCCXLI TRADIÇÕES


Junho chega e o chão se cobre de brasas. No meio delas, batatas-doces assam lentamente, enquanto na mesa se espalha um festival de guloseimas: canjica, curau, pamonha, pé-de-moleque, bolo de fubá. A viola dedilha o ritmo que faz corpos se remexerem, e o ar se enche de cheiro de festa e lembrança. É uma cena que ainda resiste nos rincões do Brasil — mas nem lá é mais predominante. Nos grandes centros, virou evento “caça-níquel” de igrejas, mais negócio do que cultura. O que mudou no Brasil? Pergunta que, talvez, já nem dê tempo de fazer.

Mas o cronista, esse “semi-lacro” segundo os amigos, insiste em perguntar — e tenta responder. Minha história pessoal talvez reflita essas mudanças. Nasci num vilarejo quase na divisa do antigo Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. A própria divisão do estado é um retrato da política brasileira: uma ditadura que, para manter o domínio parlamentar, dividiu o território e multiplicou o controle. Criou-se o MS para equilibrar forças, mas o resultado foi o mesmo — conservadorismo nadando de braçada e um povo alheio à realidade. A invenção do “senador biônico” coroou o absurdo: eminências sem voto, mas sempre a favor dos milicos. “Se era ditadura, por que precisava de eleições?”, perguntam alguns. Para manter as aparências, claro.

E o que isso tem a ver com o fim das festas juninas? Tudo. Quando a ditadura começou a apodrecer, parte da Igreja Católica — a que ainda tinha fé na justiça — passou a denunciar assassinatos, torturas, exílios e perseguições. Nasceu a Teologia da Libertação, que organizou a sociedade e deu voz aos pobres. Mas o poder econômico mundial, aliado eterno da exploração, tratou de reagir. Promoveu uma troca de perfil dentro da Igreja: o catolicismo popular foi sendo substituído pelo protestantismo conservador. E com ele, sepultaram-se as festas juninas, os forrós nordestinos, os sons das violas caipiras. A fé virou negócio, e o altar, palco de marketing.

Hoje, artistas que vivem de emendas parlamentares criticam a Lei Rouanet — que exige transparência — e defendem jornadas de trabalho 6x1, até 7x0. São os mesmos que apoiam as “bolsa-patrão” e condenam qualquer “bolsa-peão”. As fogueiras de São João se apagaram, mas o fogo da hipocrisia continua aceso.

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