A Era do Capetalismo
São tempos estranhos, diria Milton Santos em uma roda de conversa. Mais do que nunca precisamos da geografia, não apenas como ciência, mas como prática: uma bússola para nos adaptarmos ao que ainda está por vir.
Nos anos sessenta, eu mesmo cheguei a imaginar que tudo não passava de loucura. Talvez fosse apenas uma fuga de uma cultura depreciativa, de saberes que ainda não dominava. Havia sempre alguém cuja luz excessiva ofuscava os demais, impedindo-os de distinguir o brilho verdadeiro daquilo que parecia inrazoável.
Talvez minha “bola de cristal” não estivesse em sintonia. Faltava-me a capacidade de compreender. Os anos levaram o mestre, mas deixaram em mim uma dúvida persistente, como uma seringa que deposita lentamente seu veneno. Já não estava no quadro do partido, não por abandonar a ideologia, mas por uma rebeldia contra a organização. O futuro que ele enxergava — e eu não — chegou.
O mundo do capitalismo transformou o homem em papel. Nem mesmo o burguês de outrora existe mais. Agora, o homem é feito de papéis, muitos papéis, espalhados em incontáveis bancos.
Se esse quadro desagrega famílias, tudo bem — afinal, é pelo bem dos bens. Se elimina etnias, que importância têm as etnias diante da supremacia do capital? Se guerras destroem o lar de milhões, que diferença faz? Para que um magnata qualquer — e magnata não passa de um ser humano como outro, apenas com milhões e milhões acumulados — possa desfrutar de um lugar de veraneio, dez milhões de pessoas podem perder suas casas, e claro, suas vidas.
Nada mais justo, afinal, vivemos na era do capetalismo.
ENTRE NÓS E EU
O eu, indivíduo, deve, ou deveria,
Sucumbir, anti ao coletivo,
Também, a cultura do coletivo,
Deveria, interagir com outros coletivos,
Formando nações.
E as nações, formariam federações.
A isto chamaríamos de humanidade,
Mas? Vem o capetalismo!
Morre o humanismo,
Moribundam os coletivos,
Padecem o coletivo,
Realça-se o eu absoluto.
Só que não.
O eu resultante que sobressai
É um indivíduo monetário,
Pior, um indivíduo com muitas unidades monetárias,
Desimportando a importância do indivíduo.
Anesino Sandice

Nenhum comentário:
Postar um comentário