quinta-feira, 11 de junho de 2026

TOMO MMCCXXXVI Pastoragem Descuidada? Não. Pastoragem Má Intencionada.


Ainda no rescaldo da “Caminhada para Jesus”, realizada no dia de Corpus Christi, fica evidente que a chamada pastoragem — ou melhor, esta pastoragem — não mudou em nada ao longo do tempo. Continua essencialmente exploratória. É verdade que a sociedade se transformou, mas a exploração apenas se sofisticou, atingindo patamares inimagináveis. Se antes havia “um CNPJ por família”, hoje a própria noção de CNPJ foi atualizada para servir ao modelo contemporâneo de acumulação e controle.No século XVII a.C., na Frígia, atual Turquia, durante o reinado de Midas, não existia remuneração formal. Isso pode ter influenciado traduções antigas: onde lemos “escravização”, talvez devêssemos compreender como “junção de famílias” em uma relação simbiótica, quase um ganha-ganha estrutural. O que sabemos — ou melhor, o que imaginamos — é que havia sim pessoas submetidas, mas sempre me perguntei se essas traduções não carecem da mesma revisão que deveríamos aplicar ao relato dos “mil anos” da construção da arca de Noé. Sabemos que o calendário judaico era lunar e o egípcio solar; logo, os mil anos da narrativa podem ser apenas setenta e sete.

Essas distorções, porém, foram úteis às pastoragens de má fé, iniciadas muito antes da dominação romana sobre a Palestina, até mesmo antes de Davi. Os profetas predisseram a vinda de um Messias porque a sociedade já estava corroída. É exatamente dessa corrosão que surgem as premonições bíblicas: o Messias viria para realinhar a rota de um povo que se dizia de Deus, mas que já havia se perdido.

Com o tempo, essa perda se potencializou. Os pastores da má fé não se contentam em conduzir suas ovelhas ao abate; eles sugam, via dízimo, não apenas os minguados recursos de suas comunidades, mas também o senso crítico de suas ovelhas. Transformam fé em CNPJs corporativos, enriquecem — ainda que não tanto quanto os grandes burgueses das redes globais — e roubam algo ainda mais valioso: a capacidade de pensar. Fazem suas ovelhas defenderem absurdos travestidos de pautas morais, como a reimplantação de uma jornada desumana de “7x0”.

Assim, a pastoragem não é apenas descuidada. É deliberadamente má intencionada.

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