"A extrema direita boliviana não teve lugar nas eleições." Luis Arce
Em 17 de agosto, a Bolívia foi às urnas. Como resultado das eleições presidenciais, Rodrigo Paz Pereira e Jorge Quiroga se enfrentarão no segundo turno. A propósito, o atual presidente boliviano, Luis Arce, deu à RT suas impressões exclusivas sobre o processo democrático.
O presidente boliviano, Luis Arce, falou com exclusividade à RT após o primeiro turno das eleições presidenciais realizadas ontem. Ele elogiou a participação democrática do povo boliviano e destacou a contribuição de seu governo para garantir o bom andamento do processo eleitoral.
"Mais uma vez, o povo boliviano demonstrou sua vocação democrática indo às urnas, sem criar problemas que pudessem desvirtuá-lo. Então, estamos muito felizes com isso; contribuímos como governo", afirmou.
Ao mesmo tempo, Arce enfatizou que "a extrema direita boliviana não tinha lugar na eleição", o que, em sua opinião, reflete os desejos do povo boliviano.
"Sempre apelei à sabedoria do povo boliviano. Eles foram muito claros ao nos dizer 'não queremos voltar aos 20 anos de neoliberalismo que existiram com a direita recalcitrante' e, em vez disso, traçar um caminho em direção à centro-direita", disse Arce, enfatizando que o candidato presidencial Rodrigo Paz, que obteve 32%, "representa" esse movimento.
A esquerda não conseguiu “cativar” o seu eleitorado
Nesse sentido, o presidente enfatizou que, desta vez, os candidatos do Movimento ao Socialismo (MAS) não conseguiram "cativar novamente nosso eleitorado de esquerda". No entanto, ressaltou que grande parte de seus apoiadores se inclinou para Paz porque "não querem a direita" no país e "buscam uma alternativa", como a que ele e o Partido Democrata Cristão representam.
"Acreditamos que este seja um bom sinal para a nossa população. Acho que também haverá expectativas sobre o que qualquer uma das duas facções que vencer o segundo turno poderá fazer no governo", acrescentou.
Em tom autocrítico, Arce admite que o MAS deveria ter formado uma "unidade" para sair vitorioso nas urnas. "Nosso povo esperava uma chapa forte, uma chapa que oferecesse alternativas e pudesse tirar o país de todo esse problema, mostrando que há unidade no movimento rumo ao socialismo, à esquerda. Mas isso não pôde acontecer devido a vários fatores — boicotes internos e externos — que impediram a consolidação da unidade."
"Não podemos mais confiar nas pesquisas"
Arce admite ter ficado surpreso com o fato de Rodrigo Paz ter terminado como o candidato mais votado, apesar de ter apresentado uma alta nas últimas pesquisas. "Não suspeitávamos da magnitude da sua vitória. Obviamente, havia uma grande parte da população, que fazia parte do Movimento ao Socialismo, que estava indecisa, mas, no final, vimos que eles tomaram partido e preferiram uma coalizão democrática."
"Não podemos mais confiar nas pesquisas agora. Não podemos mais confiar nos meios de comunicação que as divulgaram e as adotaram", acrescentou.
Sobre o altíssimo índice de votos nulos nessas eleições, Arce afirma que era "uma opção" para quem discordasse de algum dos candidatos.
Bolívia e sua presença internacional: mudará com o novo presidente?
Arce acredita que um governo de centro-direita, como o que está surgindo para assumir o comando do país, "saberá valorizar os benefícios" de ser membro de organizações internacionais e do bloco BRICS.
"Temos grandes oportunidades de nos integrar e crescer junto com este novo bloco. Acho que eles precisam refletir profundamente sobre isso em benefício do país, não como uma questão político-ideológica. É por isso que nos tranquiliza um pouco saber que o favorito é um governo de centro-direita", afirma.
A posição da Bolívia em conflitos internacionais deve mudar "dependendo da percepção" do próximo governo, alerta Arce, destacando que, por exemplo, na questão de Gaza, o país tem sido claro até agora.
"Denunciamos isso e nossa posição tem sido firme, incluindo o fim das relações exteriores com Israel. Não acreditamos que nenhum país deva ter qualquer relação com um país que se dedica a matar crianças, especialmente", afirmou.
O legado de Arce para o novo governo
O atual presidente boliviano afirma que parte de seu legado é a "industrialização do país" e ter conseguido restaurar a "democracia" que o povo tanto exigia após o golpe de estado de 2019.
"Assumimos a responsabilidade de recuperá-la, de protegê-la, de mantê-la, porque tivemos que lidar com bloqueios de estradas, passeatas e até mesmo uma tentativa de golpe de Estado em junho passado. Enfrentamos tudo, mas preservamos a democracia", afirmou.
"O melhor legado que podemos deixar ao nosso povo e ao nosso país é poder, em seu bicentenário, fazer a transição democrática para o novo governo", concluiu Arce, que revelou que, após deixar o cargo, se dedicará ao descanso antes de retornar à academia na Universidade Mayor de San Andrés.Os resultados das eleições presidenciais na Bolívia, realizadas neste domingo, 17 de agosto, durante as eleições gerais do país, colocaram Rodrigo Paz Pereira e Jorge Quiroga no segundo turno. O primeiro, candidato do Partido Democrata Cristão, obteve 32% dos votos, enquanto seu rival, da Aliança Livre, ficou em segundo lugar, com 27%.
Após a divulgação dos resultados, Arce parabenizou os cidadãos pelo exercício de seus direitos e deveres cívicos e reiterou sua disposição de transferir o poder a quem for eleito pelo povo. Os bolivianos voltarão às urnas em 19 de outubro .
"Estamos confiantes de que, no segundo turno, nossa população reafirmará mais uma vez que os bolivianos resolvem nossos problemas pacificamente, demonstrando mais uma vez a vocação democrática que sempre nos caracterizou", escreveu o presidente na rede social X.

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