segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O sabor da vida, que não perdemos

.

Por: Daniel Cabana.

Das águas e dos fios, das marés e dos cortes. Há uma dor que não escorre, que se instala, um charco interior.

É a má água, a água parada que não corre para o mar, que se recusa ao movimento. Fica ali, estagnada, pesada, envenenando a terra do ser. Guardá-la é um ato lento de autointoxicação, é deixar que a memória de um golpe, se transforme em veneno que se bebe todos os dias, gota a gota, até que o sabor da vida se perde e só fica o amargo do que ficou para trás.

E no entanto, o mundo é feito de encontros. De trajetórias que se desenham no ar, fios lançados ao vento pelo acaso. Nossas linhas, um dia, até se cruzaram. Foi um instante preciso, um ponto de luz no mapa do tempo. Havia a promessa de um desenho, de um novo tecido a ser feito a quatro mãos. Mas a geometria da vida é traiçoeira. A sua linha, eu não sabia, estava impregnada de cerol. Não era um fio para unir, para bordar, para amarrar delicadamente. Era um corte disfarçado de encontro.

O cruzamento, então, não foi uma costura, mas um talho. Um golpe limpo e silencioso. E a má água da mágoa começou a se formar naquele ferimento, na vala aberta por um fio que não pretendia construir, mas separar e bebi aquela má água, esperando que você morresse.

A arte, porém, não está em beber a má água, não está em alimentar ressentimentos, não está em evitar que as linhas com cerol existam, o mundo está cheio delas. A arte suprema está em não permitir que a sua própria linha se transforme numa delas. Está em aprender a deixar fluir a água parada, em escavar canais para que a dor estagnada, encontre seu caminho de volta para o oceano, que é maior que toda a dor.

É saber que a cicatriz ficará, sim. Um traço fino na geografia da pele, um mapa de um lugar por onde se passou e não se quer voltar. Mas a água nova, a água boa, deve seguir fluindo por sobre ela, levando consigo as folhas secas do passado, irrigando novas margens, cantando baixinho uma canção de movimento.

Porque a existência não se mede pela nitidez do golpe, mas pela dança que se inventa a partir dele. É a arte sagrada de mover-se com o peso e a leveza do que nos marcou, transformando o ferro do trauma no fluir da memória que não envenena. Seguir tecendo é um ato de rebeldia, um manifesto íntimo de que a ternura persiste, mais consciente de sua textura, mais livre em seu desenho. Sabemos dos fios cortantes que voam, das armadilhas do caminho, mas a nossa linha insiste em seu risco poético: não para retaliar, mas para amarrar, conectar, enredar histórias. Ela desenha no ar não a perfeição, mas a coragem vulnerável de quem escolheu o laço, mesmo sabendo que ele pode desatar, sobre a solidão fria de quem apenas corta. E nesse tecer, a cicatriz deixa de ser uma fronteira e se torna o mapa de um sobrevivente que dança.


Recanto das Letras 

Código de texto:T8415438

Bom dia, Guerreirxs.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SBP em pauta

DESTAQUE

GUERRA CONTRA AS DROGAS: A velha ladainha americana para intervir na América Latina

Desde o seu início, na década de 1970, a guerra às drogas promovida por Washington na América Latina tem sido alvo de controvérsia e debate....

Vale a pena aproveitar esse Super Batepapo

Super Bate Papo ao Vivo

Streams Anteriores

SEMPRE NA RODA DO SBP

Arquivo do blog