Recordo uma das muitas falas de minha mãe, Dona Maria Aurora, que costumava mencionar uma espécie de vingança da natureza. Nessa visão, a natureza adquiria uma consciência “supra-humana”, dotada de bondade e tolerância quase divinas, mas que, paradoxalmente, ao atingir os espaços dos ricos, acabava punindo sobretudo os pobres.
São justamente eles que, sem acesso à informação e vítimas do descaso político, sofrem com a ausência de serviços básicos, como a coleta de lixo.
Não é exatamente o que minha mãe dizia, mas é impossível não relacionar essas lembranças ao cenário político recente. Tivemos um governo federal que, durante quatro anos, ignorou tragédias ambientais enquanto o país estava literalmente submerso. Em vez de estar presente, preferiu passeios de jet-ski. Não se trata de profecia, mas de constatação — e estamos em pleno ano eleitoral.
Minas Gerais, o Estado das alterosas, revela em sua geografia quem ocupa as áreas de risco: encostas e margens de rios. Minha mãe, que nunca teve acesso à leitura, sabia bem que os pobres eram empurrados para esses lugares. Sem escola, sem alternativas, restava-lhes apenas conviver com o lixo e com a precariedade.
Hoje, embora haja escolas em quase todas as cidades, o estímulo ao pensamento crítico é sistematicamente desestimulado. A população é condicionada a eleger políticos que se apresentam como novidade, mas cuja principal “inovação” é cortar verbas sociais. O resultado é a repetição de tragédias que atingem sempre os mesmos: os pobres.
O atual governador de Minas, reeleito com apoio do ex-presidente, reduziu em 94% os recursos destinados à prevenção de desastres naturais. Quem são as vítimas? Novamente, os mais vulneráveis.
Entre migalhas de investimentos e discursos que exaltam o pouco que se faz, permanece a exclusão. Minha mãe não pôde aprender a ler; hoje, mesmo com escolas disponíveis, muitos continuam privados do direito de pensar livremente. A mídia colaborativa e certos cultos religiosos reforçam esse bloqueio.
No fim, sobra aos excluídos apenas a exclusão — a mesma de sempre, travestida de novidade.

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