Nos versos satíricos de Nisinha, a piada buscaria retratar a perseguição imposta pelo chamado “marreco” contra pequenos agricultores do Paraná. Esses trabalhadores, que haviam conquistado contratos para fornecer alimentos à rede escolar pública, foram penalizados por substituírem hortaliças após fortes geadas, sem alterar a quantidade entregue.
A operação, batizada de forma suspeita como “Agricultura Fantasma”, teria levado inclusive ao suicídio de um agricultor. Enquanto isso, o “marreco” ascendeu politicamente: de juiz a ministro, depois senador, mirando ainda mais alto em cargos de poder.
O histórico de arbitrariedades desse personagem é longo, como apontam investigações jornalísticas de Joaquim de Carvalho, no Canal 247, que há anos expõe suas façanhas.
Hoje, não apenas a mídia alternativa revela os bastidores da história recente do Brasil: o golpe de 2016, o fim do rótulo de “país do futuro” e a persistência de uma dependência política e econômica. Tudo isso sustentado por uma narrativa midiática que cultua o “marreco” e seus símbolos.
Coincidências históricas também chamam atenção: a criação de uma rede televisiva treze meses após o golpe de 1964, que afastou uma suposta ameaça comunista inexistente. O medo, afinal, sempre foi combustível para gastos em segurança e lucros industriais, enquanto pequenos agricultores seguem marginalizados.
O golpe de 2016 não apenas atrasou o desenvolvimento nacional e entregou o Pré-Sal, como coincidiu com o aumento de feminicídios e outras tragédias sociais, entre elas a morte de “Orelha”. Casos como esse remetem à memória de Galdino, indígena queimado vivo em 1997 por jovens de famílias influentes. Ambos episódios revelam a violência estrutural que atravessa nossa história.
Em 1964, os militares, apoiados pela mídia e setores religiosos, foram protagonistas. Em 2016, o judiciário assumiu o papel central, enquanto o conservadorismo católico cedeu espaço à força política evangélica.
O Brasil, de fato, nunca precisou de guerras externas. A última, contra o Paraguai, foi travada como braço armado de interesses estrangeiros. Nossos verdadeiros inimigos, porém, sempre estiveram dentro das fronteiras.
A RÚCULA E A GEADA
Quero rúcula,
Gritava o marreco insandecido,
Mas, a geada, queimou a rúcula,
Não, não queimou não,
Grassava o insandecido marreco.
Sou patriota, "desenvolvimentista",
Rico tem de ser rico, pobre, é pobre.
Quem fornece alimentos para escola é rico.
Se pobre começa a vender,
Logo vai comprar um iate,
Só p'ra velejar no meio-fio,
Grassava o intrépido marreco.
Onde já se viu,
A APAE,
Onde já se viu,
O Bamerindus,
Onde já se viu,
A Petrobrás,
Onde já se viu,
A geada queimar a rúcula,
Mas, não queimar o agrião.
Tudo isto é enrolação.
Vá lá, polícia federal,
E sequestram todos os iates,
Que velejem nos meios-fio,
Por vicinais estradas de terra,
Em qualquer rincão deste Paraná.
Onde já se viu,
Geada queimar rúcula,
Mas, o agrião, não.
Nisinha Vamos

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