Há cerca de um século, a extrema direita consolidava sua presença na Europa: Alemanha e Itália sob regimes totalitários, o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha. Nos Estados Unidos, a Doutrina Monroe reforçava a ideia de uma “América única”. Nada disso parecia tão estranho à época, pois os horrores da guerra ainda não haviam se revelado em toda sua dimensão.
Retrocedendo ainda mais, cinco séculos atrás, encontramos as “guerras santas” e as torturas legitimadas pelos estados nacionais, muitas vezes conduzidas pela Igreja Católica, que se colocava como guardiã da moral universal. A corrupção institucionalizada se manifestava nas vendas de indulgências, gerando cismas e rupturas religiosas profundas.
Não se trata de uma repetição absurda da história, mas da constatação amarga de que a humanidade pouco evoluiu. Sejam os seis mil anos bíblicos ou os cento e cinquenta mil da “Luci”, o primeiro esqueleto humano datado pelo carbono 14, parece que seguimos esquecendo o sentido de progresso.
A naturalização dos absurdos é visível hoje: ofensas raciais contra Vinícius Jr. convivem com clubes que exaltam ídolos oriundos de antigas colônias, enquanto o Brasil atravessava a ditadura militar, marcada por torturas e pela negação da corrupção. No presente, práticas autoritárias ainda encontram espaço, sustentadas por discursos que relativizam a violência e a humilhação de afrodescendentes.
A história não é cíclica, mas as correntes que aprisionam a humanidade permanecem. Do pelourinho à cadeira de Judas, do pau-de-arara às camisetas que exaltam torturadores, a continuidade da barbárie se reafirma. Hitler preferiu a morte, Mengele fugiu e viveu sob falsas identidades no Brasil. A covardia, ontem e hoje, é apenas mais um capítulo do mesmo enredo: o da não evolução humana.

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