Há uma diferença que precisa ser feita logo de início: religiosidade e religião não são a mesma coisa. A religiosidade é natural ao ser humano, uma busca íntima por sentido e transcendência. Já a religião, essa sim, é um CNPJ, uma empresa. E como toda empresa, busca lucro — seja de ideias, seja de poder.
Constantino sabia disso quando “se converteu” ao cristianismo. Não foi fé, foi estratégia. O império precisava controlar o crescimento da crença entre os dominados, e a religião oficial nasceu como extensão do Estado. Quando o império romano ruiu, a Igreja herdou sua estrutura de poder e requentou a velha máquina de defesa estatal. Só que agora, com a bênção de um Deus, o poder se tornava ainda mais tenebroso.
A Inquisição é o exemplo mais cruel. Atrocidades cometidas em nome da fé que fariam a SS de Hitler parecer um grupo de sociopatas em treinamento. Quem ousasse divergir do clero, muitas vezes local, era condenado a horrores indescritíveis. A fé, transformada em instrumento de terror.
Essa obscuridade ecoa até hoje. O negacionismo científico, como a Terra plana, repete a lógica medieval: condena a ciência à clandestinidade, sufoca o pensamento livre. Galileu mostrou que a Terra não é o centro do universo, mas ainda há quem prefira acreditar no bispo em vez dos próprios olhos.
E não é apenas sobre ciência. É sobre política. O mesmo “não pensar” que dominou a Idade Média tenta se reimplantar agora, travestido de bolsonarismo no Brasil e trumpismo nos EUA. O prazer da liberdade de pensar, conquistado a duras penas, precisa ser defendido. Principalmente nas eleições parlamentares, onde se decide se o país seguirá no caminho da razão ou se voltará ao terror já vivido nos quatro anos de desgoverno, quando mais de setecentas mil vidas foram perdidas na pandemia.
A discrepância entre religiosidade e religião é clara. A primeira não cabe em questionamentos: é íntima, pessoal. A segunda, quando manipulada por lideranças de má fé, é ferramenta de controle. Um controle que alimenta minorias vivendo em ostentação, enquanto a maioria é empurrada para jornadas de trabalho extenuantes, como na Argentina de Milei, ou para retrocessos trabalhistas defendidos por governadores alinhados ao bolsonarismo.
Acorda, Brasil. O atraso humano tem nome, mas a resistência também: chama-se liberdade de pensar. E essa, não podemos abrir mão.

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