Há sempre uma discussão anterior à polêmica — neste caso, ao desfile dos Acadêmicos de Niterói. A questão de fundo é: como pode existir cristão de direita?
A origem dessa contradição está na busca humana por explicações para aquilo que considera primordial e inexplicável: a vida. Quando a ciência não responde, a imaginação se volta ao campo religioso. O Deus dos cristãos, que antes foi o Deus dos hebreus, é também o Deus islâmico — o mesmo dos árabes, donos do petróleo, que precisam retardar o fim dos motores à explosão.
Mas a conversa é mais profunda. Esse Deus, sequestrado pelo poder político desde Constantino, foi moldado para servir ao império. As adaptações feitas ao texto bíblico transformaram a fé em instrumento de governo, permitindo que o clero herdasse o espólio romano. Ainda assim, é preciso reconhecer: Deus não é invenção do império, mas resposta às incertezas humanas. Em comunidades não contaminadas pela cultura romana, há muitos deuses — cada um para uma necessidade diferente.
O ponto da crônica é o cacarejar da direita diante do desfile. Nem mesmo as manipulações de Constantino, que sustentaram absurdos como a Inquisição, conseguiram sepultar o Cristo revolucionário.
É aí que entram os religiosos “de conserva”. Para alguns, a carapuça serve perfeitamente. A extrema direita cacareja como avestruz, seja para defender a não tributação das elites, seja para atacar tímidas medidas de justiça fiscal — como a isenção de imposto de renda até R$ 5.000,00, ainda distante da tributação praticada na própria “meca do capitalismo”, os Estados Unidos.
Se quisermos preços mais justos e competitivos, é preciso taxar quem ganha mais. Mas os seguidores de um Cristo conservador — aquele que desfila armado, que ignora o bom samaritano — cacarejam contra qualquer tentativa de distribuir pão, reduzir jornadas extenuantes ou proibir pedágios abusivos.
Sem essas medidas, continuam as filas do osso. E com elas, seguem os lucros absurdos que financiam campanhas do clã do “capetão”

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