segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TOMO MMCXXIII – MEU DEUS! OU MEU DEUS?


Confesso: nunca soube distinguir se o “meu Deus” que minha mãe, Dona Maria Aurora, exclamava com as mãos juntas era expressão de espanto ou de dúvida. Talvez fosse um bálsamo imediato, uma forma de digerir os imbróglios da vida — que, aliás, sempre vinham embrulhados em papel de embrulho.

A primeira vez que notei essa expressão eu tinha cerca de cinco anos. Um morador da Rua do Frutal, onde vivíamos, faleceu repentinamente. Na época, além de Deus, quem matava era o coração — não era “infarto”, era “infarte”, como se dizia. Sofreu um ataque do coração.

Ainda não morávamos na Vila Terezinha, mas meu pai, Seu Enéas, como muitos à sua volta, tinha predileção por políticos messiânicos. Era cabo eleitoral de Jânio Quadros, que indicou como sucessor nas eleições bandeirantes um tal de Carlos Alberto Carvalho Pinto — nome de rodovia e, para os meus olhos infantis, alguém que literalmente saiu da lama.

Antes mesmo de eu ir à escola, Jânio levou seu pupilo ao Parque da Água Branca (oficialmente Parque Fernando Costa). E não é que o futuro governador pisou numa ruma de bosta de cavalo? Relato fidedigno do senhor Enéas à Dona Maria. Ah, e que ninguém ousasse se referir a alguém mais velho sem o devido pronome de tratamento: “senhor” ou “dona”.

Naquela época, votar em políticos messiânicos era quase um dever divino. Cabia aos eleitores alfabetizados com mais de dezoito anos não apenas votar, mas impedir a ameaça comunista — que já tomara a Rússia e metade da Europa. Fidel Castro e Che Guevara ainda não haviam se declarado comunistas e eram pintados como heróis pela imprensa radiofônica, por enfrentarem Fulgêncio Batista, que transformara Cuba num antro de prostituição.

Sete décadas depois, os homens da prostituição viraram “homens de Deus” — os mesmos que protagonizam escândalos de corrupção, com dinheiro escondido em armários ou jogado por janelas. Um deles, alçado ao poder com ajuda de um juiz que virou superministro, foi responsável por inações que levaram à morte de meio milhão de brasileiros. Ele e seus filhos desfilavam com camisetas estampando um torturador, ignorando que a tortura é crime imprescritível e inafiançável. Agora, esse “santo homem de Deus” alega ser vítima de tortura pelas consequências de seus próprios atos — sem sequer ter sido acusado de apologia à tortura.

A tendência de votar em figuras messiânicas persiste em amplos setores sociais. Velhas lideranças ainda buscam novos Fulgêncios Batistas. Quando tudo dá errado — como na fila do osso — é apenas incompetência. No caso dos bolsonaristas, a culpa é de todos, menos de Jair. Mesmo anistiado, ele abandona o figurino de vítima e assume, longe das câmeras, o papel que nunca deixou: o de eterno candidato. Com todas as bênçãos do deus dos Fulgêncios Batistas.


Ah, se é espanto a interrogação? A verdade é que o tal Deus é frequentemente e muito bem utilizado pelos inimigos do povo

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