No dia 7 de fevereiro de 2025, nós da Rádio Comunitária Cantareira — mais especificamente no programa Sintonia Cultural, apresentado por Anilson Francisco Brito e por mim — recebemos duas integrantes do Al-Anon para uma roda de conversa. Por respeito ao anonimato que a instituição garante a seus participantes, os nomes das convidadas não serão revelados.
Mais do que a conversa em si, o que merece destaque é o papel que a Rádio Cantareira reivindica: ser um espaço de escuta, acolhimento e transformação. E as repercussões desse papel são profundas.
No caminho de volta para casa, reencontrei um amigo de infância da Vila Terezinha. Ele havia ouvido o programa e estava visivelmente emocionado. Compartilhou que um familiar faleceu por cirrose hepática, o que gerou perplexidade na família. Por motivos religiosos, o consumo de álcool era proibido — e essa pessoa nunca demonstrava sinais de embriaguez. Era um daqueles casos em que o álcool não deixa rastros visíveis, mas destrói silenciosamente por dentro.
Durante anos, a mãe do meu amigo carregou uma culpa silenciosa, acreditando que a sogra era responsável, já que o marido nunca conheceu o pai. A dor e a confusão se acumularam até que um psicólogo recomendou o Al-Anon. Foi o início da libertação.
Em poucos minutos de conversa, questões profundas vieram à tona. Lembrei que trabalhei com o pai dele por um tempo, e que suas lições de moral contrastavam com o cheiro constante de álcool. Entre colegas, chamávamos de “o hipócrita”. Claro, isso não precisa ser revelado ao meu amigo, que ainda vive sob os dogmas religiosos herdados. Mas a verdade é que o erro não estava no atestado de óbito, e sim nas práticas ocultas do pai. A mãe, assim como os filhos, era apenas mais uma vítima de um vício invisível.
Por honestidade intelectual, agradeço às duas representantes do Al-Anon que estiveram conosco no Sintonia Cultural. Elas já agendaram retorno para o dia 25 de abril. O que fica é o aprendizado: dogmas religiosos nem sempre vencem problemas de saúde. Buscar ajuda é necessário, mesmo que isso revele uma realidade que fomos ensinados a negar.
Durante o programa, também falamos sobre feminicídios. E, depois, na rua, outra reflexão me ocorreu: há mortes sem vítimas aparentes. A mãe do meu amigo carregou por décadas uma culpa que não era sua, escondendo o vício do marido e sendo vista como cúmplice. A roda de conversa de abril certamente abordará essa dimensão silenciosa da dor.
Desapegar de dores causadas na vida, é necessário

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