Quando nasci, o hospital do Pinel — ou hospital de Franco da Rocha — era mais do que um símbolo de bullying da época: representava uma ameaça constante. Num Brasil em que a justiça sempre foi branca, isto é, voltada ao privilégio do europeu ou do pretenso europeu, a polícia se mostrava mais inclinada ao justiçamento do que ao policiamento.
A ditadura, fruto de um golpe que ousou se autoproclamar “revolução”, não se limitou a uma questão de nomenclatura: tratava-se de uma disputa semântica. Afinal, revolução pressupõe legitimidade, enquanto o golpe apenas impôs censura ao pensamento. Essa censura alimentou a letargia mental — a preguiça de pensar — e levou muitos a preferirem que outros pensassem por eles.
Essa preguiça coletiva fez com que gerações aceitassem a narrativa oficial: não houve revolução, tampouco a honestidade propagada pelos militares. Como a informação era propositalmente ocultada, para muitos ela simplesmente não existia. Ledo engano. A letargia mental encontrou aliados poderosos: a mídia, que raramente cumpriu seu papel de informar, transformando-se em “mérdia colaborativa”, e os eternos beneficiários do sistema, os chamados “mamateiros”.
Assim se perpetua uma sociedade excludente, que se mantém intacta mesmo quando a oposição chega ao Executivo. No Legislativo, apesar das eleições periódicas, prevalece o justiçamento — a negação da justiça. Uma justiça branca, que associa cor da pele à criminalidade, num país mestiço.
Em outras palavras, a doença mental é fabricada para sustentar uma sociedade estamentada. Para que essa sociedade pareça saudável, é necessário manter viva a indústria da letargia mental. Essa indústria se alimenta da mídia colaborativa, da justiça branca e, sobretudo, da estrutura religiosa, que se diz ética, mas desconhece o sentido da palavra.
O quadro que se desenha é o de lideranças religiosas que deveriam orientar espiritualmente, mas que, se fossem de fato cristãs, seguiriam os ensinamentos de Cristo — um revolucionário que pregava a construção de uma sociedade justa e plural. Porém, ao contrário disso, alinham-se à lógica do golpe de 1964, perpetuando exclusão e desigualdade.

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