segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

TOMO MMXXVIII – A MOLÉCULA DE DEUS


Se pudéssemos viajar no tempo — seis mil anos atrás, ou até cerca de 190 mil anos, quando a espécie humana surgiu — encontraríamos uma constante tentativa de controlar a força feminina.

Essa trajetória nos leva a um momento mais recente, registrado nos anais do Congresso Nacional, quando a então senadora Simone Tebet se rebelou ao ser chamada de “descontrolada”. Ela respondeu com firmeza: toda mulher precisa deixar de ser controlada por um marido — uma tradição que, embora antiga, é reforçada por interpretações distorcidas da Bíblia cristã.

Curiosamente, os chamados “cristãos conservadores” não encontram respaldo para suas ideias nas pregações de Cristo. Não há, no Novo Testamento, qualquer defesa da misoginia.

Este texto não é uma defesa antecipada do voto em Simone Tebet, hoje ministra do Planejamento. Ainda não sabemos qual cargo ela disputará, e tampouco podemos classificá-la como progressista. Mas diante do bolsonarismo — que representa o obscurantismo — é preciso, antes de avançar, resistir.

As religiões de origem hebraica propõem um controle absoluto sobre a autonomia feminina. Seus textos falam repetidamente sobre um Messias que viria restaurar a glória do Reino de Deus. Se esse Messias é Cristo, como pode haver cristãos que negam sua mensagem?

Até o papado de João XXIII, qualquer menção a um Cristo humanista era considerada heresia. A descoberta desse Cristo — que defende a dignidade humana — levou quase dois mil anos, e ainda hoje enfrenta resistência.

É natural, portanto, que a mulher, livre da necessidade de ser controlada, possa revelar seu potencial humano para além da maternidade. Isso, por si só, já é uma manifestação daquilo que chamamos de “molécula de Deus”.

Esse termo também é usado para descrever uma conquista científica: uma pesquisadora brasileira, formada em universidade pública — algo que os conservadores ruidosos desprezam — está desenvolvendo um medicamento que muitos, sem compreender seu trabalho, chamam de “molécula de Deus”.

Sempre que alguém me oferece uma “palavra de Deus”, percebo que está preso a uma visão ideológica que reduz Cristo à continuidade do Antigo Testamento — um Cristo que, ironicamente, não tem nada de cristão.

Por isso, é essencial compreender a transição entre o cristianismo anterior a João XXIII e o Cristo do Novo Testamento. Mais importante do que rejeitar o rótulo de “descontrolada”, as mulheres precisam reconhecer que são capazes de ocupar qualquer espaço.

Os homens sabem disso — por isso insistem em controlar. Cabe às mulheres não apenas assumir sua capacidade, mas entender que superar esse controle começa com uma ação concreta: o voto.

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