Nos anos 1960, Frances Oldham Kelsey, médica e pesquisadora, enfrentou a pressão de uma grande farmacêutica ao se recusar a aprovar o uso da talidomida nos Estados Unidos.
O medicamento, já liberado em diversos países da Europa sem grandes exigências, era vendido como analgésico eficaz, especialmente para gestantes. Kelsey, porém, alertava para a ausência de testes conclusivos sobre os efeitos em fetos.
Sua resistência foi decisiva: milhares de crianças deixaram de nascer com graves malformações nos membros. A atuação de Kelsey na FDA (equivalente à ANVISA no Brasil) mostrou que a prudência científica pode salvar vidas, mesmo diante de críticas e acusações de vaidade.
Décadas depois, ainda é possível identificar pessoas com sequelas da talidomida — braços ou pernas muito menores — resultado da ingestão do medicamento durante a gravidez.
A metáfora da “Talidomida Cognitiva”
Vinte anos antes da negativa de Kelsey, em 1940, desembarcava no Brasil a Assembleia de Deus, Ministério de Belém. Faltou, talvez, alguém com a mesma firmeza para questionar a proliferação de denominações religiosas que se seguiram. Assim como a talidomida comprometeu o desenvolvimento físico, certas práticas religiosas podem comprometer o desenvolvimento cognitivo.
Embora existam lideranças que pregam sem sufocar a reflexão crítica, muitas vezes a religiosidade é instrumentalizada por interesses de poder. Esse fenômeno se intensificou no bolsonarismo, mas já era perceptível muito antes: uma tendência conservadora entre setores evangélicos que contrasta com a figura de Cristo, provavelmente o maior revolucionário humano da história.
Como conceber um cristão conservador? Só pela exposição contínua a uma espécie de “talidomida cognitiva” — uma droga simbólica que ataca a capacidade de pensar — ou pela manipulação de uma elite que se apropria da fé popular.
Além dos evangélicos
É importante reconhecer que não apenas os evangélicos sofrem com esse “assassinato intelectual”. A história católica também registra episódios de repressão cognitiva, como a Inquisição. A religiosidade, que deveria ser espaço de liberdade e transcendência, muitas vezes foi usada como ferramenta de controle.
Frances Oldham Kelsey: um exemplo
Apesar de trabalhar na FDA, Frances Oldham Kelsey era canadense de nascimento. Sua trajetória mostra que nem todo indivíduo formado dentro de sistemas poderosos se torna cúmplice do caos. Pelo contrário: sua coragem e persistência provaram que a resistência crítica pode proteger a humanidade.

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