quarta-feira, 6 de maio de 2026

TOMO MMCCII AS BARBARIDADES DA BARBÁRIE


Lendo e relendo o momento atual, quase escrevi “da humanidade” — mas parei. É difícil chamar de humanidade quem defende a tortura. Dói. Dói ainda mais quando quem defende isso se diz cristão. Digo “se diz”, porque é impossível imaginar um verdadeiro cristão apoiando tamanha crueldade.

Penso na capacidade de memória — não só humana, mas biológica. Se fosse exclusiva do homem, como explicar as tartarugas que voltam aos mesmos lugares para desovar, ou as baleias que buscam as mesmas águas para acasalar? A memória não é privilégio humano. E, no caso da humanidade, parece até um fardo: como explicar que, em menos de cem anos, apagamos os horrores do nazi-fascismo da lembrança coletiva?

O exemplo mais curioso é o do povo judeu, que se orgulha — com razão — de ter sido uma das maiores vítimas do nazismo. Mas não foi o único. Homossexuais, negros, mulheres e todos os que ousaram se opor à ideia da “raça ariana” também foram perseguidos. E hoje, ironicamente, há negros, pardos, indígenas e mulheres defendendo práticas e discursos nazi-fascistas. Mais absurdo ainda: há pobres que se esforçam para defender o direito de não ter direitos.

Imagine uma reunião de campanha direitista numa periferia qualquer. Se alguém perguntasse: “Quem aqui já teve um familiar vítima da violência policial? Quem conhece uma mulher agredida? Quem paga aluguel e vive sem liberdade de respirar?” — a lista seria longa. E, mesmo assim, muitos levantariam a mão e continuariam aplaudindo seus algozes.

Sabemos as razões desse apagamento da memória — e fazemos questão de não esquecer. Tentamos entender o porquê.

Comecemos pelos “cristãos” que transformaram sua fé em militância política. O problema não está só nas pregações das lideranças pseudocristãs atuais. O Cristo da Bíblia, aquele que pregava amor e compaixão, praticamente nunca existiu nas comunidades cristãs dominadas pelas nobrezas. O Cristo delas sempre foi o Cristo dos poderosos. O nazismo, afinal, nasceu nos Principados Sacro-Germânicos — a Alemanha antes da unificação. A distância entre Cristo e seus “seguidores” sempre foi astronômica.

Chegamos, então, à atualidade. O fato de esses pseudos-cristãos serem contra tudo o que Cristo ensinou não surpreende. Mas ofende. Ofende a inteligência, a memória e, principalmente, a esperança de que ainda exista humanidade na humanidade.

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