Nos meus ontens — olhando pra essa fama fabricada que a maioria das pessoas persegue — o brasileiro parece não ter memória. Ou talvez tenha, mas curta demais. Como dizia João Cabral de Melo Neto em
Morte e Vida Severina, o sertanejo morre de velhice antes dos trinta. Se for assim, minhas lembranças já deviam estar mortas. Mesmo assim, ainda ecoa nos ouvidos aquela velha ladainha: “PT, partido de trombadinhas”.
E quem dizia isso? Gente que até hoje se acha acima de qualquer suspeita, vestida de uma nudez moral que faria inveja a um bebê recém-nascido.
Os que nos acusavam eram os eternos “fura-greves” — os puxa-sacos de todas as ocasiões. Pais que nunca apareciam nas reuniões da escola dos filhos, mas estavam sempre prontos pra apontar o dedo. E, claro, não dá pra esquecer uma categoria tão comum quanto uma nota de três reais: os famosíssimos cristãos conservadores.
Antes de continuar, vale lembrar: Cristo foi um revolucionário. Há dois mil anos, ele enfrentou a misoginia (“atire a primeira pedra quem não tiver pecado”), o preconceito religioso (“parábola do bom samaritano”) e o poder dos ricos (“é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”). E, se voltarmos ainda mais, lá no Gênesis, há uma mensagem que desmonta a homofobia — só que poucos querem enxergar.
Em resumo: antes de falar em novos paradigmas, é bom lembrar que paradigma nenhum se sustenta sem algo real pra comparar.
Quem nos chama de “vagabundos” é financiado por quem defende privilégios absurdos — como as filhas de militares, especialistas em golpes de Estado e em pintar meio-fio. Gente que luta por aposentadoria integral enquanto o resto do país mal sobrevive à inflação. E isso é só a ponta do iceberg da “real realidade”, tão descarada quanto os próprios fura-greves.
Grande parte das forças policiais hoje está de mãos dadas com as milícias — e milícia, pra quem finge não saber, é formada por policiais que cometem crimes, às vezes fardados, às vezes usando a farda pra cometê-los. Se quiséssemos nos aprofundar, daria pra dizer que essas forças existem mais pra proteger as posses de quem tem posses do que pra proteger a sociedade.
Mas isso nos levaria a um Cristo que ninguém quer conhecer — um Cristo que, com razão, talvez dissesse que o PT virou um partido de direita.
Hoje, já não nos chamam de “trombadinhas”. Os verdadeiros trombadinhas estão presos — e não por roubar colares, mas por tentar dar golpes de Estado, quebrar bancos, corromper políticos e esconder milhões em malas e carros.
Agora, o novo rótulo é “comunista”. E tudo bem. Porque comunista, afinal, significa buscar igualdade. Só que eles sabem disso — e fingem não saber.
Pra eles, o céu dos justos é reservado a quem rouba aposentadorias, até dos que foram roubados. Mas nunca pra quem quer justiça.
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