Confesso: não sou exatamente religioso. Fui criado nesse ambiente, é verdade, mas sem muita leitura ou aprofundamento. O que havia — e ainda há — era a biblioteca da Cruz das Almas. E havia também, no meu caso, aquele homem de batina preta, falando uma língua estranha: o latim.
O motivo das minhas visitas, quase escondidas, à biblioteca da Cruz das Almas, foi simples: o bullying com meu nome. Nas histórias cantadas, justificavam meu nome pela razão bíblica, como se fosse louvável. Só que não.
Esse preâmbulo ajuda a entender por que não me surpreende a rejeição do advogado-geral da União ao cargo de ministro do STF. Ainda que, confesso, eu tenha ficado meio nu de surpresa. Imaginem se eu fosse um fiel pagador de dízimo: nesse caso, seria apenas mais um manipulado pelas pregações do pastor. E o pastor sempre diz que a terra é de alguns, que a verdade da Bíblia é aquela difundida de forma absurda, que nos faria todos iguais. Mas iguais como? Não pardos, como provavelmente seria o Cristo histórico, nem brancos, como o Cristo vendido nas imagens loiras que servem de modelo para os donos da terra e do capital. Esse Cristo loiro é a cor de pele que legitima quem escraviza todos os que não têm terra — mesmo os de pele clara.
Então, por que o advogado-geral da União foi rejeitado no Senado? Porque é cristão? Não. O que Jorge Messias questiona não é a origem absurda de um único DNA humano, mas sim a posse da terra concentrada nas mãos de poucos.
Confesso: nunca li nem ouvi nada de Jorge Messias que me fizesse pensar nele como um amigo de todas as horas. Até acredito que ele pague religiosamente o dízimo. E repito: quem paga dízimo deveria ser processado por idiotice, e quem cobra, por estelionato.
Isso só aumenta os questionamentos sobre a recusa. A primeira razão é histórica, de mais de um século. Por trás dessa rejeição, há a manipulação dos cobradores de dízimo, que vivem socialmente muito distantes dos pagadores.
Mas... é sabido: pessoas realizadas não frequentam igrejas, logo, não pagam dízimo. Ou seja, para manter igrejas cheias, é preciso que haja uma completa idiotice coletiva.
MEUS ONTENS FABRICANTES DE HOJE, MEU CONSTRÚIDOS POR MENTIRAS:
Se eu lesse na bíblia,
E gritasse a plenos pulmões:
"Se neste livro estivesse escrito,
Que somos originários de um único DNA,
Logo, seríamos: todos iguais,
Não somos!
Só, que por acreditarmos que somos,
Ah, se fôssemos, pardos seríamos,
Mas, nas mentiras acreditadas,
Impõe a crença do Cristo loiro.
O Cristo loiro, defensor de desigualdades,
Defensor da propriedade da terra,
Apesar que da escrita.
Escrita que diz:
Que o deus único, pai do Cristo,
Curiosamente "loiro",
Que teria feito a terra,
Que seria de todos,
Mas, a invenção do Cristo loiro,
Também Inventou a terra de todos,
Que é só de uns.
Santo Semfé)

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