Antes, muito antes de o primeiro livro parar nas minhas mãos, havia uma inquietude — aquela curiosidade silenciosa que nasce em quem ainda não sabe ler, mas já desconfia que o mundo tem segredos guardados nas palavras. Era década de cinquenta, e o contato com o universo letrado vinha a conta-gotas. Em 1960, chegou o primeiro gotejar: a cartilha Caminho Suave. Primeiro as letras, depois o encontro vocálico. A lição era da abelha — e foi ali que o zumbido da leitura começou a ecoar dentro de mim.
Mas o verdadeiro despertar veio antes, em 1956. O cenário era a nave de uma igreja católica, o som era o de um homem de batina preta falando uma língua estranha — o latim. Eu não sabia ler, não havia rádio em casa, e nunca tinha visto um homem vestido assim. Mesmo assim, aquilo não me pareceu estranho. O que me incomodava não era o mistério das palavras, mas a hipocrisia que se escondia atrás delas.
Volto mentalmente àqueles anos que antecederam o golpe de 64, porque ali já se desenhava o domínio da narrativa da exploração — o obscurecimento do pensar, travestido de fé. As palavras “Deus”, “fé”, “Cristo”, “Maria” eram repetidas como mantras inquestionáveis, até aquela missa do homem de batina.
Hoje, as ciências chamam de memória genética aquilo que talvez eu tenha sentido: ecos de um passado que não vivi, mas que me acompanhou. Medos antigos, moldados pela religião, que assassinam a curiosidade e o pensamento.
A história oficial do Brasil, contada por vinte e um anos como “processo revolucionário”, foi, na verdade, uma revolução às avessas — como um motorista que, para não andar na contramão, decide seguir em marcha-ré, acreditando que assim muda o destino.
Não busco o sobrenatural. Busco o que foi esquecido. A história real, aquela que não se conta, foi oficializada pelos amantes da exclusão. Os que a desvirtuam mamam nas benesses do desvirtuamento; os hipnotizados pagam as contas e, em nome de um deus que deveria ser de todos, atacam os igualmente lesados.
Esta crônica não fala de uma “Luci” antropológica, mas de setenta anos de vida — de uma missa em que, ainda criança, questionei a sinceridade dos olhos lacrimejantes que cantavam louvores, e percebi que a prática humana faz questão de manter essas cantigas eternamente atuais.

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