O ponto de partida é o abacate, esse fruto curioso: quando verde, brilha, parece perfeito, mas é impróprio para o consumo. Já maduro, perde o brilho, fica opaco, mas finalmente serve ao seu propósito. É nessa contradição que nasce nossa metáfora — e ela se estende até a tal guerra assimétrica.
Guerra assimétrica é aquela desigual, em que uma força militarmente inferior enfrenta, com os recursos que tem, um poder infinitamente superior. No campo da mídia, o Irã divulgou um vídeo feito com inteligência artificial: Trump sentado numa mesa de negociações por dois mil anos, esperando o Irã. Ao fim desse tempo, a delegação americana recebe apenas um bilhete: “Shut up”.
Dois mil anos — o tempo da existência de Cristo. Cristo, que não é reconhecido pelo Irã, antiga Pérsia, dominada pelo Islã. Historicamente, as guerras sempre tiveram desculpas celestiais, mas escondiam a mesma sede de poder: governantes que, pela religião, convenciam o povo a se matar em nome de deuses, enquanto eles se deliciavam com os espólios.
Hoje, vemos o Estado de Israel, judaico, convencer o Trump americano a mergulhar em mais uma guerra. E, como sempre, há o componente econômico: indústrias bélicas lucrando fortunas, muitas vezes ligadas às mesmas elites que se apresentam como herdeiras da fé cristã.
Minha analogia não tem dois mil anos, mas sim a memória de 68. Lembro da Páscoa de 1958, quando um comerciante trouxe à cidade o filme A Paixão de Cristo. Todos comentavam a crueldade dos romanos, que torturaram e executaram Jesus. Mas meus olhos de criança de cinco anos se fixaram em outro detalhe: o sacerdote judeu que pressionou Pilatos a lavar as mãos e autorizar a crucificação.
Hoje, aos 73 anos, sigo convencido de que a humanidade insiste em consumir um abacate verde: bonito por fora, mas impróprio para o consumo.

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