terça-feira, 14 de abril de 2026

TOMO MMCLXXX - SAÍ DE RETRO SATANÁS


Da fé universal à indústria da guerra

Saindo do início do século, dos anos cinquenta e sessenta, quando o mundo parecia inteiramente católico, lembro-me da chegada de minha tia — meses antes de eu começar a escola.

Naquele tempo, o Valter, que morava no meio do caminho entre nossa casa e a escola, era parte de um cotidiano em que o “diabo” era uma linguagem espontânea, quase uma metáfora constante. Era assim na família, na vizinhança e até nas conversas escolares.

O mundo que conhecíamos era católico, e a história ensinada na escola também o era. Os reis das grandes navegações eram católicos, e o fechamento das rotas do Oriente Médio — dominadas pelo islamismo — forçou a busca por novos caminhos comerciais. Essa tensão entre fé e comércio moldou o início da modernidade. Mas minha tia, já adulta, não falava disso com crianças.

Anos depois, o ensino ginasial ainda não era um direito universal no Brasil. Só se tornou acessível quando a ditadura militar, empenhada em industrializar o país, percebeu que o povo não tinha formação mínima para se adaptar às exigências técnicas. A educação popular limitava-se à aritmética; a matemática era privilégio.

Acabei abandonando o ginasial, levado pela militância política. Foi nesse período que meus estudos ultrapassaram tudo o que antes me fora permitido. Descobri que os evangélicos — aqueles que, segundo minha tia, só sabiam chamar tudo de “diabo” — tiveram papel decisivo na colonização. Onde chegaram, organizaram suas próprias colônias, ainda que sob domínio estrangeiro.

A estrutura do atual império econômico e ideológico começou ali. Não por bondade evangélica, mas porque, nas terras onde se instalaram, havia menos “patriotários” e mais pragmatismo. A independência veio antes da descoberta do ouro, e o grande salto econômico da burguesia norte-americana se consolidou nas grandes guerras mundiais.

Há, porém, uma herança sombria dos tempos em que a Igreja Católica imperava: a ideia de “fé universal” — tradução literal do termo católico. Quando o mundo árabe impôs bloqueios comerciais e religiosos, muitos judeus foram forçados à conversão, tornando-se “cristãos-novos”. Ironia histórica: são justamente descendentes desses cristãos-novos os principais proprietários das indústrias bélicas, que lucram — e muito — com todas as guerras do mundo. Desde sempre.


"DIABOS 


Em casa, ainda no séc passado, 

Ah, anos cinquenta, palavrões, 

Os palavrões, nunca eram ouvidos, 

"Merda", nem pensar,  "cocô",

Era ir ao banheiro.


Mijar, nem pensar, fazer xixi. 


O pior palavrão, não permitido para crianças. 


Era filho de uma boa-mãe. 


Tudo isto muda na virada da década, 

Minha tia evangélica, chegou, 

Chegou de mala e cuia. 


Aí, tudo era o diabo, 

Tudo era do diabo. 


A bola de borracha, ou de meia,

Invenção do diabo, 

Bola de gude, 

Coisa do capeta 


Baile, coisa do cremulhão,

Cremulhão, na linguagem, que me lembro da minha tia, 

Um outro sinônimo para diabo. 


Santo Semfé"

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SBP em pauta

DESTAQUE

GUERRA CONTRA AS DROGAS: A velha ladainha americana para intervir na América Latina

Desde o seu início, na década de 1970, a guerra às drogas promovida por Washington na América Latina tem sido alvo de controvérsia e debate....

Vale a pena aproveitar esse Super Batepapo

Super Bate Papo ao Vivo

Streams Anteriores

SEMPRE NA RODA DO SBP

Arquivo do blog