Em novembro de 1979, Rachel Clemens Coelho, uma menina de cinco anos, fez um gesto que ecoou muito além da sua idade: recusou apertar a mão do general ditador — avô de um certo “misto de jornalista e traidor da pátria”, defensor de milicianos e de um ex-presidente que, junto ao filho, insiste em perpetuar o desgoverno. Um gesto simples, mas que dizia muito sobre dignidade e coragem.
Vale uma pausa. Não na narrativa entreguista, mas na peculiaridade desse estado brasileiro que, mesmo elegendo diretamente seus presidentes, parece gostar de flertar com o caos. Minas, o “estado das chupetas”, ganhou fama de ser pêndulo eleitoral — quem vence lá, costuma vencer no país. E não é só isso: foi também berço de muitos migrantes que, muito antes da febre migratória, já adotavam costumes de terras estrangeiras.
Rachel, aos cinco anos, fez um gesto que embalou ideais — ou melhor, ideias — vindas de uma “inconfidência”. Palavra curiosa, essa, que carrega em si uma certa servilidade disfarçada de rebeldia. Nossa historiografia, mesmo dois séculos depois da independência, ainda parece submissa.
E como faz falta essa Rachel mineira! Falta aos marmanjões de hoje, que perderam o senso de indignação. Rachel nos deixou em 2015, talvez prevendo o que viria depois: o quebra-quebra de 2013, a farsa-jato, e a criação de uma sociedade sem vontade própria, acostumada a ser dominada.
O Brasil perdeu mais do que uma menina de cinco anos — perdeu o sentimento patriótico, o repúdio à ditadura, a coragem de dizer não. Infelizmente, não dá pra esperar que surja outra Rachel, enquanto a marmanjada segue chupando suas próprias ilusões, incapaz de nascer com o mínimo de sentimento democrático.

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