Antes de discutir os motivos, volto mais de meio século no tempo. Era o final dos anos 1960, e Christian Barnard acabara de realizar o primeiro transplante de coração. O feito provocou uma avalanche de conversas — muitas delas desinformadas — em dois mundos que eu frequentava.
No chão de fábrica, os militantes do “partidão” questionavam se a burguesia seria mesmo capaz de produzir avanços significativos para a humanidade. Entre eles, havia também a “malandragem-agulha”, gente esperta no linguajar, mas sempre enganada pela vida.
Em outro ambiente, numa célula do partido, eu conversava com dois pós-doutores sobre o mesmo tema: o tal transplante.
Da descrença dos operários à indiferença dos malandros, a palavra “imuno-supressor” soava como um enigma. Minha ignorância me empurrava para a biblioteca — não havia Google, nem literatura acessível sobre o assunto. Saí de lá acreditando saber tudo sobre imunidade, aquele processo biológico que faz o corpo se recuperar de uma gripe. Aprendi também sobre o “acidente” de Fleming, que descobriu a penicilina quase por acaso.
Mas, como todo curioso, fui além. A conversa evoluiu para um hipotético transplante de cérebro. E aí veio a dúvida: o que seria transplantado, afinal — o corpo que recebe o cérebro ou o cérebro que ganha um novo corpo?
Era, claro, uma confusão da minha completa ignorância. Enquanto os outros falavam sobre o que hoje chamamos de cirurgia de redesignação sexual, eu via apenas uma questão de homossexualidade. Naquele tempo, a “malandragem-agulha” falava das “mulheres-viadas” com deboche, e os homens homossexuais eram alvo de gozações e preconceitos — inclusive entre os comunistas do chão de fábrica, que os chamavam de quinta-colunas.
Imaginar um cérebro acordando de uma anestesia e se encontrando num corpo diferente parecia ficção científica. Décadas depois, quando a mídia começou a divulgar as cirurgias de mudança de sexo, percebi que aquela fantasia ganhava contornos reais.
Hoje, sigo uma YouTuber trans que, com coragem e lucidez, expõe as dificuldades que enfrentou após sua cirurgia — um contraponto necessário às idiotices e violências que a extrema direita insiste em propagar.
Essas histórias tornaram-se parte da nossa realidade. A homossexualidade masculina, antes vista como tabu, foi sendo normalizada. Mas o desafio agora é outro: compreender as vivências trans desde a infância.
Recentemente, conheci um pai que vive o drama da filha — uma criança de dez anos que provavelmente será uma mulher trans. A situação me tocou profundamente. Lembrei de um amigo que se descobriu homossexual já adulto e do sofrimento da mãe, que o defendeu das incompreensões do pai.
No caso da menina, há ainda o turbilhão hormonal da puberdade e a inadequação entre corpo e mente. É impossível retardar o curso biológico, mas como evitar o preconceito dos idiotas?
O preconceito, quando fica dentro da cabeça, é apenas ignorância. Mas quando ganha palco midiático e se transforma em campanha orquestrada, torna-se violência.
E é por isso que insisto: uma criança de dez anos é, sim, um indivíduo — e merece existir plenamente, sem precisar pedir permissão para ser quem é.
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