sexta-feira, 24 de abril de 2026

Tomo MMCXCI Do Lado de Cá, do Rio do Dinheiro


Do lado de cá do rio do dinheiro, a maionese do fim de semana nunca é da melhor marca — é sempre a possível.

Assim, a parte pobre do planeta vive proibida até de desenvolver o paladar. Se fosse uma questão biológica, diríamos que nos negam o direito de amadurecer as papilas gustativas, de sentir o sabor da vida. Proíbem o que é nato ao ser humano, e a maioria nem imagina o que está sendo negado.

Pode parecer radical, mas é isso mesmo: nos vetam o desenvolvimento de uma identidade cultural. E esse veto só existe porque há outros vetos — o veto ao saber natural, à curiosidade, à língua. Sem dominar a língua, não aprendemos a domar o mundo.

Eles dizem que nosso lazer é ócio, e que o ócio é “a oficina do capeta”. Mas o capeta deles, na verdade, é a nossa existência.

O fim da “escala 6x1”, que vendem como progresso, é só mais uma ilusão. Vendem para as parcelas da população que orbitam as zonas de interesse do capital — orbitam, mas nunca tocam o centro. Nessa lógica, não há descoberta de Newton; o espectro gravitacional aqui é invenção do século XVII, o Cristo conservador.

As igrejas, sozinhas, não conseguiriam apagar a luz do saber. Então entram em cena outros púlpitos — os sem dízimo, mas que custam muito mais que os 10%. São os programas jornalísticos da burguesia, que pregam com a mesma eloquência dos pastores, só que com microfones dourados e discursos travestidos de verdade.

E assim seguimos, do lado de cá do rio, comendo a maionese possível, acreditando que o sabor da vida é o que nos vendem — enquanto do outro lado, o banquete é servido com talheres de prata e consciência anestesiada.


(Sou, eternamente flor,

Para quem diz que não come flor,

Olha, nem estamos falando daquela coisa "chiquetosa",

Uma salada de pétalas de rosas, 

Estamos falando mesmo,

É que toda flor,

Não passa de um útero vegetal modificado. 


Quando você come um abacate, 

Quer numa vitamina, 

Que sabe, como minha esposa gosta,

"Açúcar e leite em pó, 

Ou igual a meu gosto, 

Menos açúcar e suco de limão".


Talvez, a descoberta "mexicana",

Salada "salgada" vinagrete e azeite.


Assim, a laranja, a melancia, 

A pequenina pitanga, a gigantesca jaca,

Tudo é fruto, tudo foi flor.


O feijão, o arroz, o milho,

Ah, o milho, um "fruto", cujo abelha, 

Não chega para "germinar",

Os fios do cabelo une os dois gametas.


Masculino e feminino, esta é, 

A mistura da vida.


No mamão "papaya,

Na uva da salada, banana.


Mas, se você gosta de morango, 

Putz, antes de falar do morango, 

Uma pergunta, você já comeu;

Caju, à milanesa, não como sobremesa, 

Caju, à milanesa, não no suco,

Mas, como mistura no almoço.


Voltemos ao morango, 

Morango não é flor,

Morango é uma enflorescência.


Nisinha Vamos



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