E NENHUM AMANHÃ "POR ENQUANTO"
A história oficial nos apresenta a chegada dos portugueses ao Brasil como um ato triunfal, quase épico. Homens armados de uma Bíblia e de uma retórica sedutora, que hipnotizava os povos originários. Mas o que os livros escondem é que, junto da Bíblia, vieram os “paus-de-fogo” — armas que superavam em muito o arco e flecha indígena. A verdadeira conquista não foi espiritual, mas bélica.
Os Kaetés, descritos como canibais, foram demonizados para justificar a violência. A célebre frase de um indígena resume a tragédia: “Quando eles chegaram, tinham a Bíblia e nós a terra. Quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós, a Bíblia.” A troca foi desigual e devastadora.
Séculos depois, a lógica permanece. Igrejas continuam a exercer poder sobre os mais vulneráveis, cobrando dízimos e “ofertas voluntárias” que, na prática, não têm nada de voluntário. Pastores acumulam terras, gado e indústrias, enquanto seus fiéis mal conseguem sobreviver. A Bíblia, que deveria ser guia espiritual, segue sendo instrumento de exploração.
Os indígenas de hoje, espremidos entre rodovias ou confinados em aldeias urbanas, são testemunhas vivas dessa continuidade. A terra lhes foi tomada, e em troca receberam promessas de salvação. O mesmo mecanismo que sustentou a colonização sustenta elites religiosas e políticas contemporâneas.
O 26 de abril, portanto, não é apenas uma data histórica. É um lembrete de que os “ontens” ainda pesam sobre o presente, e que o amanhã só virá quando a terra e a dignidade forem devolvidas aos que sempre foram privados delas.

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