Das minhas lembranças de Sexta-feira Santa, guardo uma cena vívida: o tapa seguido de um pedido de perdão. Meu pai, ajoelhado, olhos marejados. O motivo? Eu havia perguntado se aquele dia teria mais horas. Nem sabia ainda que um dia tem vinte e quatro.
Décadas depois, ouvi alguém dizer — era 1º de abril de 2026 — que houve um tempo em que bacalhau era comida de pobre. Curioso, porque nós éramos pobres, e o primeiro “bacalhau de verdade” que entrou em casa veio por doação. Antes disso, o “bacalhau” era o surubim, o tal “bacalhau brasileiro” que meu pai comprava no Brás, salgado e com escamas, que minha mãe penava para limpar. Às vezes vinha o corimbatá, mais carnudo, ou a corvina fresca. Era o ritual da Sexta-feira Maior, quando até o leite era proibido — pecado mortal.
Nos anos cinquenta, lá na Vila Terezinha, não havia geladeira nem energia elétrica. O peixe ficava horas de molho em água morna para tirar o sal. Era o que se tinha.
Depois vieram os anos sessenta, a renúncia de Jânio — o “homem da vassourinha”. Cassado por corrupção? Não segundo os janistas, entre eles meu pai.
Mas esta conversa é sobre hipocrisia.
O grande rival do janismo era o ademarismo, que também se dizia honesto. Lembro bem das discussões acaloradas entre os amigos do meu pai, que zombavam dos ademaristas com a frase que virou lema: “rouba, mas faz”. Qualquer semelhança com o malufismo não é coincidência.
O Brasil, naquela época, já era o “país do futuro”. Os “honestíssimos” de então faziam discursos inflamados, nacionalistas, exaltando os Estados Unidos como modelo. Nunca houve rompimento político — nem lá, nem cá.
Sessenta anos depois, o discurso se repete. Os novos “honestos radicais” se calam diante das joias, da Covaxin, dos escândalos. O velho “rouba, mas faz” desapareceu, porque agora nem o “faz” existe. Em seu lugar, surgem as teorias conspiratórias: “E a Ferrari de ouro do Lulinha?”, “E as fazendas com milhões de bois?”, “E as ações da Oi?”, “Quando ele vai declarar a Friboi?”.
Sessenta anos se passaram, e o Brasil continua sendo tratado como colônia — ao menos no discurso da direita tupiniquim.
Ah, a direita tupiniquim... única no mundo.

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