Entre a Lua e o Asfalto
Ontem, domingo de Páscoa, 5 de abril de 2026, vi uma postagem mostrando uma ilustração do percurso da nave Artemis II. A imagem, claro, é apenas imaginável. Mas basta sair à rua — em qualquer cidade, até nas economias mais centrais — para ver algo bem real: pessoas vivendo em situação de rua.
Faço aqui uma pausa para lembrar de um tempo em que, nos pequenos rincões, a explicação para isso era simples e cruel: “desarranjo mental”.
É justamente sobre essas razões — ou desculpas — que quero pensar, fingindo ser um leigo em ciências sociais.
Será que é apenas “desarranjo” o que leva tanta gente a duvidar de coisas imagináveis, como o percurso da Artemis II? Até dá para compreender, ainda que não se possa subscrever. Mas quando se trata de negar a fome em meio a grandes plantações — como cantou Geraldo Vandré em “Pra não dizer que não falei das flores” — a coisa muda de figura.
Aqui entra um ponto curioso: há uma versão religiosa por trás dessas negações. Sim, até o negacionismo da corrida espacial tem raízes na fé distorcida.
Quando a Apolo XI levou o primeiro ser humano à Lua, em junho de 1969, o Brasil vivia sob o peso da Guerra Fria e das narrativas oficiais moldadas pelos patrocinadores dos golpes em terras tupiniquins. Mais de meio século depois, quando o país finalmente conseguiu rechaçar uma tentativa de golpe, as justificativas voltaram a ser religiosas — e, ironicamente, negam a própria realidade.
Dizem que o país está pior, muito pior, mesmo com menos gente passando fome. São os mesmos que acreditam que a Terra é plana e que milicianos são “honestos” o bastante para administrar a pátria.
Ignoram que um pacote de arroz a R$22,00 hoje custa menos do que quando estava R$40,00; ou que o feijão, que no tempo do pai do “miliciano candidato” custava R$13,00, hoje não chega a R$5,00.
Assim como finjo desconhecer as ciências sociais, há quem finja não enxergar a realidade. E essa cegueira tem direção — política, ou melhor, religiosa.
Essa fé distorcida esconde uma predileção nada disfarçada pela gestão dos milicianos.
Quem nega a realidade, nega também a capacidade humana de viajar pelo espaço. Afinal, se a Terra é plana, não há espaço sideral.

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