(à equipe do programa “A Galera do Esporte”, da Rádio Comunitária Cantareira: Nathércia, Elisângela e Daniel)
Depois do tri mundial de 1970, o futebol virou quase religião — mas, calma, não é sobre bola que quero falar. O futebol aqui é só pano de fundo pra outra conversa, porque o jogo que mais nos afeta acontece fora do gramado.
Lá atrás, depois do bi no Chile, quando Pelé se machucou e Amarildo e o Mané das pernas tortas — o nosso Garrincha — fizeram a festa na terra do fogo, o Brasil ainda respirava liberdade. Dois anos depois, veio o golpe. A ditadura se instalou e, com ela, o silêncio. Repressão e arte nunca jogaram no mesmo time — é como tentar misturar inteligência e bolsonarismo: não dá liga. A seleção de 1966 foi só fazer reverência na terra da rainha, sem brilho nem alma.
Em 1970, o clima era outro — ou melhor, não havia clima nenhum. O país vivia sob terror, mas o futebol, mesmo sob coação, trouxe o tri. Em 1974, a geração já não era a mesma. Um tal de Lato, largo e polonês, nos tirou o terceiro lugar, e antes disso o carrossel holandês, a laranja mecânica, nos atropelou. Em 1978, fomos campeões morais — porque a ditadura brasileira, ingênua, achou que a ditadura argentina deixaria escapar a chance de vencer em casa. Ingenuidade militar é quase pleonasmo.
Em 1982, o general de plantão já estava decadente, e o futebol-arte tentou ressurgir. Tentou, mas não levou. Nas copas seguintes, o Brasil trocou a arte pela retranca — o anti-futebol. E aí, finalmente, veio o tétra. Depois, perdemos feio pra França, na França, e ganhamos de novo na Ásia, a primeira copa dividida entre dois países. Desde então, a máquina publicitária vende ao povo uma “vitória certa” que o futebol ainda deve.
Mas voltemos às têtras do tétra — à seleção campeã nas terras do império do mal, digo, dos Estados Unidos. Era o tempo da paridade artificial entre o real e o dólar, que o governo Itamar teve que segurar pra não afundar o barco. O tri veio no México, o tétra nos EUA — e agora, na próxima, o Canadá entra no jogo.

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