Confesso: não há registro cronológico fiel daquilo que chamamos de humanidade. A Bíblia sugere seis mil anos de história — Adão teria vivido novecentos e trinta, e Noé, mil cento e cinquenta, tempo suficiente para construir uma arca e salvar o mundo da própria ruína.
Mas o tema aqui é perda.
Na criação do deus único, ganhamos o livre-arbítrio — ou, ao menos, a ilusão dele.
Seis mil anos depois, parece que o livre-arbítrio se resume à liberdade de pagar dízimo a um “pastor” que cobra por algo que não existe em nenhum versículo do Novo Testamento.
A cobrança do dízimo está em Isaías, antes mesmo do Gênesis cristão — uma prática anterior ao Estado, de caráter assistencialista, não espiritual.
Antes do neto de Davi se coroar rei de Israel, o dízimo fazia sentido: era partilha, não comércio da fé.
Hoje, tornou-se moeda de troca entre o medo e a promessa.
Há oitenta anos, o protestantismo desembarcou no Brasil trazendo na bagagem uma missão disfarçada — conter o olhar social que começava a brotar na Igreja Católica.
Mas ser evangélico não deveria significar ser conservador.
O profeta que inspirou a igreja pregava humanidade, não assistencialismo.
O problema está nos “pastores” que transformaram o púlpito em balcão.
Entre sermões e cifrões, dizem que miliciano é honesto, que banqueiro preso é patriota, e que o pangaré manco é símbolo de fé.
A fé virou espetáculo, e o livre-arbítrio, um produto.
Na ótica desses pregadores, o PCC e o CV são inimigos do “Tio Sam”, justificando até a ideia absurda de uma invasão estrangeira em nome da moral.
Mas o que realmente perdemos?
Perdemos o pensamento crítico, o comparativo do patriotismo, e o direito de escolher sem medo.
Perdemos o livre-arbítrio — não por imposição divina, mas por desistência humana.
PERDEÇÃO
Perdemos, a hora do trem,
Perdemos assim a viagem,
Perdemos a hora trabalho,
Perdemos a primeira aula,
Ah, se seu emprego era,
Numa fábrica de caçamba,
Ao perder a hora do trabalho,
Perdia também o dia,
"Um minuto" de trânsito parado,
Se fosse numa sexta-feira
Voltava para casa"
Marmita na mochila,
A roupa no armário".
Só havia uma troca, logo,
Achou ruim, por faltar o dia,
Dia que impediram de entrar,
De presente, te davam um gancho.
Gancho na segunda.
Assim dois domingos no mês.
Assim, quem acionava o sindicato
Ganhava o bilhete azul.
Confesso, o meu veio antes de organizar uma greve.
Não que não tenha organizado.
Anesino Sandice)
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